Fabiana Milazzo apresenta Passarim
Ao completar 25 anos de trajetória, a estilista encontra na natureza não apenas uma referência estética, mas um convite à contemplação, à liberdade e à renovação.
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Escrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza · 12 de outubro de 2026
Assim nasce Passarim, coleção que toma emprestado o nome e a atmosfera da música de Tom Jobim para construir uma narrativa em torno do movimento dos pássaros e da beleza dos pequenos encontros. A escolha não parece fortuita. Em uma indústria frequentemente orientada pela velocidade das tendências e pela necessidade de produzir novidades em ciclos cada vez mais curtos, desacelerar também pode ser um gesto criativo. Observar o voo, acompanhar o deslocamento das asas e perceber a transformação da luz sobre as paisagens são experiências que exigem outro tempo, mais atento àquilo que acontece entre um movimento e outro. É dessa relação sensível com o mundo natural que a coleção retira sua atmosfera, traduzindo uma memória afetiva em pesquisa de materiais, texturas e construções.

Ao celebrar um quarto de século de criação, a estilista volta o olhar para suas próprias referências e encontra nelas a possibilidade de seguir experimentando. A coleção transforma o aniversário da marca em um exercício de continuidade, no qual a experiência acumulada não representa um ponto de chegada, mas o terreno fértil para novas descobertas.

Na passarela, essa inspiração se traduz em uma investigação sobre a capacidade da roupa de acompanhar, sugerir e até reinventar o movimento do corpo. Plissados, drapeados e volumes remetem às asas e às plumagens das aves, enquanto construções elaboradas criam silhuetas que parecem se transformar a cada passo. A leveza não está apenas na aparência dos looks, mas na maneira como diferentes técnicas se articulam para produzir uma sensação de fluidez. É nesse ponto que a linguagem da alta-costura se torna fundamental: a natureza oferece o repertório visual, mas é o trabalho de construção que permite transformar a observação em forma.

Os bordados tridimensionais, os acabamentos minuciosos e as modelagens elaboradas reafirmam uma identidade criativa construída ao longo dos anos, na qual o fazer manual ocupa lugar central. A coleção também encontra na pintura uma maneira de aproximar a criação de uma experiência vivida. Durante sua temporada na Casa da Cachoeira, Fabiana desenvolveu aquarelas em degradê, explorando tonalidades de amarelo, laranja e rosa que evocam a incidência da luz sobre as paisagens e a delicadeza das cores encontradas na natureza. Essas composições ganharam vida sobre organzas e musselines, tecidos cuja transparência e leveza ampliam a sensação de movimento.
Em vez de simplesmente reproduzir uma paisagem, as cores parecem dissolvê-la em camadas, como se a memória de um lugar pudesse ser traduzida por meio de gradações, transparências e nuances. A imagem deixa de funcionar como representação literal para se tornar uma experiência sensorial. O tecido, por sua vez, atua como superfície de experimentação, permitindo que a pintura se transforme em corpo e acompanhe o deslocamento de quem veste. Há uma delicadeza particular nesse processo: a roupa não precisa ilustrar a natureza para estabelecer com ela uma relação profunda. Basta incorporar seus ritmos, suas variações e sua capacidade de transformar a percepção a cada novo olhar.

Entre as referências que atravessam a coleção, a estampa inspirada na Matinta Pereira ocupa um lugar especial. O pássaro, citado por Tom Jobim na canção Águas de Março, estabelece uma conexão entre o imaginário da música brasileira e as visualidades que alimentam a pesquisa de Fabiana. Para desenvolver a interpretação gráfica, a estilista convidou a ilustradora Thaysa Oliveira, responsável por criar uma pintura exclusiva que deu origem à estampa. O diálogo entre música, ilustração e moda revela como uma referência cultural pode atravessar diferentes linguagens sem perder sua capacidade de produzir novos sentidos. A escolha também amplia a narrativa de Passarim, aproximando a observação da fauna de um repertório artístico que faz parte da memória afetiva brasileira.
Essa relação se desdobra na seleção de materiais, que combina organzas lisas e estampadas, seda, algodão, linho, viscose, couro de cabra e jacquards. O tecido Liquid, desenvolvido na Itália e utilizado com exclusividade pela marca no Brasil, acrescenta outra dimensão à pesquisa material. Jeans bordados, paetês com efeito de penas, bordados sobre tule inspirados na plumagem dos pavões e aplicações manuais de plumas exploram diferentes maneiras de sugerir textura, brilho e movimento. O resultado nasce justamente da convivência entre superfícies e técnicas distintas: a transparência encontra a densidade, o brilho contrasta com a delicadeza dos tecidos e o trabalho ornamental se articula à estrutura da roupa. Cada escolha amplia as possibilidades de interpretação da inspiração original, evitando que o universo das aves se limite a um repertório decorativo. O que interessa é perceber como suas características podem ser traduzidas em linguagem, seja pela construção de uma silhueta, pela vibração de uma cor ou pela maneira como uma superfície reflete a luz. A natureza, nesse contexto, não é apenas um tema a ser representado, mas um sistema de relações que orienta o pensamento criativo.

A coleção reafirma a sofisticação da alta-costura como resultado de pesquisa, tempo e conhecimento, ao mesmo tempo que abre espaço para novos materiais e construções. Talvez seja essa a imagem mais significativa para marcar os 25 anos de Fabiana Milazzo: a de um voo que não rompe com o lugar de origem, mas encontra nele impulso para seguir adiante. Como o beija-flor que inspirou a coleção, a criação se alimenta de encontros breves, observa o que muitas vezes passa despercebido e transforma pequenos instantes em possibilidades de permanência.
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