LED apresenta Baile da Saudade
Há marcas que encontram na própria trajetória um repertório para continuar inventando o futuro. Para Célio e Cleu, a saudade não aparece como um sentimento imóvel, preso à idealização do passado, mas como matéria viva, capaz de atravessar o tempo e ganhar novas formas sobre o corpo.
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Escrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza · 13 de outubro de 2026
Na quinta-feira, 17 de setembro, a dupla coloca o bloco na rua pela primeira vez de maneira independente, transformando a apresentação em um exercício de memória, identidade e experimentação. “A coleção reflete as muitas fases que vivi, desde as lembranças de Caratinga, Minas Gerais, onde nasci, até as memórias mais recentes”, conta Célio. A cidade de origem, as experiências acumuladas e os códigos que acompanharam a construção da marca se encontram em uma coleção que olha para trás sem abrir mão do movimento. Poás, franjas, bolsas de contas e camisas com recortes de coração nas costas reaparecem como elementos de uma espécie de arquivo afetivo, enquanto o crochê, técnica que deu origem à etiqueta em 2014, reafirma sua presença como parte essencial dessa linguagem. Mais do que recuperar peças ou símbolos reconhecíveis, a dupla revisita aquilo que ajudou a construir sua identidade para investigar o que ainda pode nascer dessas referências.

A memória, afinal, não é uma imagem preservada intacta no tempo. Ela se transforma a cada retorno, incorpora novas experiências e encontra outros sentidos conforme muda o olhar de quem a revisita. Na moda, esse processo pode se manifestar em uma textura, em um acabamento ou em um detalhe que carrega a lembrança de um lugar, de uma pessoa ou de uma fase da vida. Ao escolher a saudade como tema, Célio e Cleu partem de uma experiência íntima para construir uma narrativa que encontra ressonância na relação coletiva com o vestir. Há algo de familiar nos elementos que retornam, mas também uma disposição para deslocá-los, combiná-los e permitir que adquiram novas possibilidades de existência.
O crochê ocupa um lugar central nessa investigação porque reúne técnica, tempo e memória em uma mesma superfície. Desde o nascimento da marca, em 2014, o trabalho manual participa da construção de sua identidade, criando uma linguagem que se reconhece tanto pela materialidade quanto pela liberdade de experimentar formas e volumes. Nesta coleção, a pesquisa se aprofunda em diferentes texturas, revelando como a roupa pode se aproximar de uma experiência tátil, convidando o olhar a imaginar o contato com cada superfície. Vestidos curtos com babados, tops felpudos com peplum, peças construídas a partir de faixas de tecido trançadas e composições cobertas por pompons ampliam o vocabulário da dupla.

As roupas não dependem apenas da silhueta para construir presença. Elas também se afirmam pelo relevo, pelo volume, pela repetição e pela maneira como os materiais respondem ao movimento. O tecido deixa de ser somente uma superfície que reveste o corpo para participar ativamente da composição, criando contrastes entre áreas mais estruturadas e outras que parecem ganhar vida própria. Há uma dimensão quase arquitetônica nesse processo: cada faixa, camada ou aplicação interfere no desenho final e altera a relação entre roupa e corpo. Ao mesmo tempo, a presença do crochê e das texturas artesanais evoca uma temporalidade distinta daquela imposta pela velocidade da indústria.
O trabalho manual exige atenção, repetição e conhecimento, elementos que deixam marcas na peça mesmo quando não são imediatamente percebidos. Em vez de tratar o artesanal como uma referência nostálgica, Célio e Cleu o colocam em diálogo com uma pesquisa contemporânea de construção e styling. O resultado é uma coleção em que a memória não funciona como limite criativo, mas como ponto de partida para novas experiências materiais. Cada textura parece guardar um vestígio de algo conhecido, embora sua combinação com outras superfícies produza uma imagem inesperada. Nesse encontro entre lembrança e invenção, o fazer manual ganha força não apenas pelo que representa, mas pelas possibilidades formais que oferece à criação.

O styling aprofunda essa disposição para misturar códigos e construir sentidos a partir de contrastes. Coletes de crochê aparecem combinados a microshorts de alfaiataria, cintos de miçangas acompanham ternos e blusões de jacquard são usados do avesso, deixando o forro aparente. As combinações deslocam as expectativas sobre o acabamento, a formalidade e a maneira como uma peça deve ser apresentada. O avesso, tradicionalmente escondido para preservar a aparência final da roupa, ganha visibilidade e passa a integrar a composição. O detalhe que costuma permanecer nos bastidores torna-se parte da linguagem, revelando que a construção de uma peça também pode produzir interesse estético para além de sua face mais evidente. Já o encontro entre o crochê e a alfaiataria aproxima universos que carregam diferentes códigos de uso e percepção. De um lado, a técnica artesanal introduz textura, irregularidade e uma relação mais sensorial com a matéria.

Ao escolher a saudade como fio condutor, Célio e Cleu transformam a estreia independente em um momento de reconhecimento da própria história, mas também de abertura para aquilo que ainda não foi experimentado. O retorno de elementos como o poá, as franjas, as bolsas de contas, os recortes de coração e o crochê reafirma a identidade da Led sem aprisioná-la a uma fórmula. As novas texturas, as combinações de styling, os primeiros calçados e a perspectiva de um espaço colaborativo apontam para uma marca interessada em expandir seu universo sem abandonar os vestígios que a trouxeram até aqui. Essa relação entre memória e transformação é particularmente significativa em uma indústria que frequentemente associa novidade ao apagamento do que veio antes. Ao contrário, a coleção sugere que revisitar o passado pode ser uma forma de produzir diferença, desde que a lembrança não seja tratada como uma imagem intocável. A saudade ganha força quando deixa de ser apenas recordação e passa a participar do presente, interferindo nas escolhas, nos materiais e nas formas de imaginar o futuro.
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