SPFW N61: Apartamento 03
O tempo como matéria e a maturidade como potência
Escrito por
Escrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza · 22 de outubro de 2026
Na moda, o tempo costuma ser tratado como um adversário a ser vencido. As tendências se sucedem, os calendários aceleram e a juventude permanece no centro de um imaginário que insiste em associar novidade à renovação permanente. Na passarela da Apartamento 03, Luiz Claudio Silva parece caminhar na direção contrária, propondo uma reflexão sobre aquilo que permanece, se transforma e ganha novas camadas à medida que envelhece.
Ao reunir retalhos de seu próprio acervo, recuperar materiais esquecidos na fábrica e levar modelos mais velhas à passarela, o estilista constrói uma coleção em que a passagem do tempo deixa de ser algo a esconder para se tornar parte da linguagem. A experiência não aparece como nostalgia, tampouco como tentativa de reproduzir uma estética antiga. Ela se manifesta na liberdade de quem conhece os próprios códigos e já não precisa perseguir a novidade pelo simples compromisso de apresentar algo inédito.

Nas peças, essa maturidade se traduz em superfícies irregulares, misturas inesperadas de materiais e silhuetas que compreendem o corpo em movimento. O azul intenso de um conjunto acetinado, atravessado por longas franjas e acompanhado de uma bolsa artesanal, transforma a roupa em uma composição dinâmica, na qual estrutura e fluidez coexistem. Em outro momento, um vestido plissado em verde profundo envolve o corpo em camadas, criando uma silhueta que oscila entre a contenção e a expansão. São imagens distintas, mas conectadas pela atenção ao movimento, à matéria e à presença de quem veste. A escolha de modelos mais velhas amplia essa leitura ao deslocar a idade de uma posição frequentemente invisibilizada pela indústria para o centro da narrativa visual. Seus corpos não aparecem como exceção ou recurso simbólico, mas como protagonistas de uma apresentação que reconhece na experiência uma forma de beleza. Há uma potência particular nesse gesto: em vez de prometer juventude eterna, a coleção celebra a possibilidade de continuar se transformando. A maturidade, aqui, não representa uma pausa na criação, mas o momento em que o repertório acumulado pode ser revisto com mais autonomia, rigor e consciência. Como quem retorna a um arquivo pessoal e descobre que algumas histórias ainda não foram inteiramente contadas, Luiz Claudio transforma o próprio percurso em matéria de experimentação.

Essa relação com o tempo encontra uma expressão especialmente significativa na presença dos textos de Stella do Patrocínio, cujas falas foram gravadas pela artista plástica Carla Guagliardi durante a década de 1980, quando ela ministrava aulas de arte na instituição psiquiátrica em que Stella estava internada. Posteriormente transcritos e publicados no livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, em 2001, esses relatos atravessam agora a coleção por meio de fitas costuradas junto às franjas de diferentes looks. A palavra deixa de ocupar exclusivamente a página e passa a integrar a superfície da roupa, aproximando linguagem, corpo e movimento. O gesto estabelece uma relação entre a materialidade do vestuário e uma voz cuja produção literária desafia classificações convencionais. É importante, contudo, que essa aproximação não transforme a experiência de Stella em mero recurso estético. Sua presença convoca uma reflexão sobre quem tem o direito de produzir linguagem, quais vozes são reconhecidas como literatura e como determinadas experiências são historicamente interpretadas por instituições de poder.
Ao incorporar seus relatos à coleção, a Apartamento 03 abre espaço para que essas palavras circulem em outro contexto, diante de outros olhares, sem que sua força dependa de uma explicação definitiva. As fitas acompanham as franjas, movimentam-se com o corpo e introduzem uma dimensão textual na composição visual. A roupa passa a carregar fragmentos de uma voz que não se acomoda facilmente às estruturas convencionais de sentido. Esse encontro também dialoga com o interesse do estilista pelos materiais que acumulam marcas, memórias e possibilidades de transformação. Assim como os tecidos guardados no acervo encontram novos usos, as palavras de Stella reaparecem em uma configuração diferente, atravessando outro campo de expressão. Mas a analogia não deve apagar as diferenças entre uma matéria têxtil e uma trajetória humana. O que aproxima esses elementos é a possibilidade de deslocamento: aquilo que foi preservado pode encontrar novos espaços de circulação, desde que o processo não apague sua origem. A moda, nesse caso, atua como meio de visibilidade, criando uma situação em que literatura, arte e vestuário se encontram.

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