“No começo, a gente nem podia usar a palavra artesanato”
Uma jornalista que passou vinte anos em redação e um produtor cultural nascido em Tiradentes criaram, em 2017, um festival que ninguém achava possível. Na 10ª edição da Semana Criativa de Tiradentes, de 15 a 18 de outubro, Simone Quintas e Junior Guimarães contam à Complete como convenceram o mercado do luxo a pegar a estrada.
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Escrito por Caíque Nucci
Editor-chefe · 14 de outubro de 2026
A conversa com Simone Quintas e Junior Guimarães aconteceu por vídeo, em setembro. Ele nasceu em Tiradentes; ela voltava à cidade sempre que o trabalho permitia. Juntos, são curadores da Semana Criativa de Tiradentes, que chega à 10ª edição de 15 a 18 de outubro.
"Tinha que acontecer", resume Simone. "Não tem explicação." A conversa mostra que há, sim, um método, e ele se parece muito com o de uma redação: escolher a palavra certa para apresentar o artesanato a um mercado que não sabia nomeá-lo, decidir quem senta à mesa, saber até onde crescer numa cidade pequena. A ideia era improvável, o dinheiro era pouco, e o que a pôs de pé foram relações pessoais.

Um jantar em Tiradentes
Eles se conheceram por intermédio de uma amiga em comum, dona de um restaurante na cidade, que costumava receber grupos de jornalistas. Simone era diretora de redação de uma revista, cargo em que ficou por vinte anos, e vinha a Tiradentes sempre que conseguia uma pauta. Junior, que é da cidade, morava em São Paulo e tinha acabado de pedir demissão. Atravessava aquele período sabático em que se tenta decidir o que fazer dali para a frente.
A amiga o chamou para o jantar porque ele conhecia a história da casa e poderia dividir a mesa com metade do grupo. "Não por acaso, a gente sentou um do lado do outro e teve uma boa conversa", lembra Junior. Falaram de Tiradentes, de casas, do trabalho dele com produção cultural. Houve ainda um segundo encontro, na redação, para ver se ele poderia colaborar com a revista. Não podia, porque o que ele fazia era outro tipo de produção. "Ficamos com essa boa lembrança um do outro."
Nesse período, Simone passou a fazer uma pergunta. A cidade, de cerca de oito mil habitantes, já recebia festivais de cinema, fotografia, teatro, arte e literatura. "Eu falava: como é que não tem um festival focado em artesanato, que é um pilar tão importante na cidade?" Era um assunto que ela acompanhava havia anos em revista de arquitetura e design, num momento em que alguns designers brasileiros começavam a aproximar o artesanato do design.
O marido brincava com a vontade dela de se mudar. "O que uma jornalista vai fazer em Tiradentes? Não tem o que você fazer lá." Ela foi alimentando a ideia mesmo assim, até que a transformação digital das revistas tornou a decisão possível. "Com o digital entrando forte, eu acabei tendo coragem de sair. Foram vinte anos, era muito tempo. Eu adorava fazer o que fazia."
O produtor que faltava
Quando a conversa com amigos designers e arquitetos mostrou que o festival tinha chance, Simone se deparou com um problema prático. "Caramba, eu não sou produtora", pensou. E sabia que produzir numa cidade pequena era outra coisa. "Você não liga para uma empresa que fornece material. É muito baseado numa relação com as pessoas."
Lembrou-se de Junior. Fazia três anos que não se viam, e tinham se encontrado, ao todo, duas vezes. Ela faz questão de dividir a autoria: o festival como existe hoje foi construído pelos dois. A primeira ideia nasceu de uma vontade dela, quase inocente, de morar em Tiradentes; a preocupação com o lugar veio dele. "O Júnior trouxe muito disso, da forma de ocupar a cidade de um jeito respeitoso."



Design feito à mão
Pergunto se foi difícil atrair patrocínio para a primeira edição, que aconteceu em 2017. "Ninguém acreditava", diz Simone. Quem poderia patrocinar, lembra, "achava a gente completamente doido".
Junior explica a resistência pelo perfil do público que eles queriam atrair: um mercado de luxo, habituado a eventos de arquitetura e decoração nas capitais, a uma hora de voo do escritório. Tiradentes não tinha voo regular; hoje voltou a ter, mas em avião pequeno. "Ninguém acreditava que esse mercado viria de ônibus ou dirigindo o seu carro, por uma estrada que nem sempre é tão boa, para chegar a um evento no interior que fala sobre artesanato."
A própria palavra era um obstáculo. "No começo, a gente nem podia usar a palavra artesanato. A gente usava design feito à mão. Falava muito do design." Junior ressalva que não se tratava só de estratégia, porque o design de fato serviu ao artesanato nesse processo. O vocabulário, ainda assim, dá a medida do preconceito da época. "As pessoas podiam falar dos designers mais bacanas de qualquer lugar do mundo, mas não sabiam nomear um mestre artesão do Brasil", diz Simone. "Foi um trabalho de letramento também desse público."
O primeiro ano saiu com o que ela chama de "um patrocínio ridículo", suficiente para pôr o festival minimamente de pé, e com a rede que ela trazia da redação. Recém-saída da revista, era abordada o tempo todo por gente do mercado perguntando o que ia fazer. Contava, convidava pessoas-chave, e essas pessoas espalhavam a notícia. "Foi um trabalho de formiguinha."
Hoje, observa Simone, há "milhares de palavras" para dizer que o feito à mão é luxo. "Mas há dez anos, que nem é tanto tempo assim, isso não se falava." Junior lembra que, no fim de 2017, depois da primeira edição, saiu uma pesquisa de tendência apontando o feito à mão como tendência. "A gente chegou no momento certo." E havia, segundo ele, uma necessidade coletiva: "Olhar para dentro, porque a gente sempre olhou muito para fora."






Uma escola sem modelo fixo
Os primeiros embaixadores do festival foram os próprios artesãos, que perceberam ali um processo diferente dos modelos institucionais de que já tinham participado. "Teve gente que chegou e falou para a gente: isso que vocês estão fazendo é uma escola", conta Junior.
Ele atribui parte do interesse do público a uma recusa em cristalizar o formato. "A gente nunca criou um modelo e falou: isso tem que ser assim. Várias vezes a gente está refletindo em como mudar, em como quebrar, em como mudar a lógica." Ele faz questão de separar isso de amadorismo. O que o festival se dá é permissão para experimentar.

A edição que ia transbordar
Pergunto como a Semana atravessou a pandemia. A quarta edição, em 2020, seria a do salto. "O festival cresceu de conteúdo, cresceu de público", diz Junior. "A hora em que a gente ia transbordar era essa quarta edição. E aí veio a pandemia."
Ficar parado não era opção. "Se a gente não fizer nada, a gente vai sumir, vai ser engolido", lembra Simone. O festival tinha conquistado visibilidade, mas ainda não tinha força para atravessar um ano em silêncio. Foram para o online, com palestras, convidados e até uma visita guiada pela cidade transmitida pela rua, onde a internet nem sempre colaborava.
A Semana Criativa é praticamente toda gratuita até hoje; só algumas oficinas são cobradas, porque envolvem cachê de artesão. Naquele ano, cobraram a participação online. "E as pessoas pagaram. A gente ficou surpreso. Elas pagaram porque queriam que acontecesse." O dinheiro, admite Simone, não fez diferença. O que importava era "não sair da memória das pessoas". O único projeto suspenso foi o de encontros entre designers e artesãos ao longo do ano, retomado no ano seguinte.
Desde então, o digital virou ferramenta central. "A gente está no interior do interior de Minas. O nosso grande aliado aqui é o digital." O perfil do festival reúne cerca de 73 mil seguidores, conquistados, segundo ela, de forma orgânica, no boca a boca. Há espaço para crescer, mas com cautela. "Se a gente torna a cidade muito cheia, você não vai conseguir vivê-la. Não vai conseguir circular, não vai achar lugar no restaurante. A gente quer crescer, mas sabe que tem uma limitação física para isso."

A redação aprende a vender
Pergunto o que a jornalista levou da redação para o festival. Simone se define como profissional de uma época em que redação e departamento comercial não se misturavam. Quando as revistas começaram a perder espaço e o comercial passou a procurar a redação para criar eventos e projetos com marcas, a reação foi de choque. "No primeiro momento, eu fiquei com muita raiva, achei um absurdo. Mas depois entendi que era uma forma de viabilizar projetos editoriais que eu tinha vontade de fazer."
Esse aprendizado, diz, foi o que permitiu fazer as perguntas certas antes do festival. "Quem vai pagar por isso? Por que pagaria por isso?" E encontrar respostas "sem interferir no propósito do festival". Mesmo assim, ela não se coloca como vendedora. "Eu tenho até hoje uma dificuldade imensa em vender. Eu e o Júnior, a gente não é desse lado. Mas a gente aprendeu, e teve que aprender."
A pergunta da primeira lista
Na primeira edição, Simone montou a lista de convidados, e Junior a devolveu com uma pergunta: onde estavam as pessoas pretas daquela curadoria? "Eu morri de vergonha. Falei: você tem razão." O pior, completa, é que ninguém naquele mercado de arquitetura e design se preocupava em pensar nisso. A correção começou ali, e hoje o festival conta com uma pessoa dedicada a ajudar nessa curadoria.
Quando peço a Junior que conte de onde veio a pergunta, ele volta a 1998, ano do seu primeiro trabalho profissional em produção. Em São Paulo, passou pela Casa das Caldeiras, num projeto que discutia identidade, território e corpo e que abrigava, entre outras iniciativas, a Feira Preta. Junior não fazia parte da feira, mas convivia com as conversas, e com os cartazes espalhados pela casa: "Onde estão as pessoas pretas?" Depois vieram a aproximação com a dança e cinco anos no Centro de Referência da Dança, onde aprendeu a desconfiar de programações com uma companhia negra só para constar. "Quase o tokenismo. Só para falar que tem."
Em Tiradentes, a mesma lógica valia para a relação com a cidade. Havia críticas a festivais que agregavam pouco à comunidade. "A gente conversou muito sobre de que forma a cidade é incluída no pensamento do festival, para não virar mais um lugar desses que chega, acontece, vai embora e não deixa nenhum legado além das hospedagens, da parte econômica."
Para Junior, voltar era um projeto antigo. "Eu não queria voltar para ter um negócio, um restaurante, uma pousada. Meu sonho era poder voltar e fazer alguma coisa que fosse transformadora." Ele cita uma amiga, a curadora Daisy de Brito, que costumava repetir: "Júnior, a gente precisa mudar a lógica."


A mão em dois momentos
Quando pergunto sobre inteligência artificial e novas tecnologias, os dois não se colocam contra a tecnologia. "Isso faz parte do futuro", diz Simone. "Não adianta querer ficar vivendo de um jeito de se fazer lá atrás." O propósito, explica, é que os saberes antigos não sofram apagamento, e isso não exige dizer não ao que está acontecendo agora.
Ela conta o caso de um escultor que "deu um nó" na curadoria. Ele trabalha com uma fresadora CNC para as partes repetitivas, mais braçais do que criativas, e chegou ao festival encantado com o que a máquina podia fazer. A primeira reação foi puxá-lo de volta para o ofício de escultor. Depois entenderam que as duas coisas cabiam juntas. "A mão dele e a criatividade dele entram em dois momentos: no projeto que ele joga ali e na finalização." A lição, segundo Simone, veio do artesão, e não deles. "A Semana não é de cima para baixo. É uma troca real de conhecimento."
O limite, para ela, é a perda de identidade. "Não vejo problema algum, desde que aquilo não vire uma pasteurização." Ela compara com o texto feito por inteligência artificial, que reconhece pela falta de ruído, e com o design gráfico de hoje: "Tudo tem a mesma luz, a mesma saturação." No dia a dia da organização, a ferramenta já ajuda no trabalho repetitivo. "É o estagiário."
Hoje somos três
Pergunto o que a 10ª edição traz de novo. Para Junior, a principal novidade tem nome. Pedro Rubens, arquiteto de 33 anos de São João del-Rei, cidade vizinha, começou como frequentador do festival. Criou a plataforma Arquitetura de Preto, que mapeia arquitetas e arquitetos negros no Brasil, com recorte também de gênero, e que hoje tem coordenadores em quase todo o país e até em Lisboa. Na Semana, foi palestrante, depois mediador e mestre de cerimônias. No ano passado, realizou o projeto Becos, iniciado em 2024.
Em 2026, ele assume a Casa de Preto, ocupação montada no prédio onde funciona o escritório do Iphan em Tiradentes, uma construção colonial de cerca de trezentos anos. São perto de vinte artistas, com oficinas, exposições, instalações, conversas e videomapping. "É quando o Pedro entra como curador oficial, e não como alguém que só dá uma consultoria", diz Junior. "Agora ele é do nosso time. Hoje somos três." Um dos dias de palestras no centro cultural também terá curadoria dele.
A edição tem outras casas temáticas. A Casa Mata Atlântica reúne projetos com artesãos e pequenos produtores voltados à proteção do bioma, com forte presença da gastronomia. A Casa do Arado, do estúdio de design gráfico de mesmo nome, que tem uma pesquisa profunda sobre o Brasil rural, relaciona o trabalho do coletivo ao da artista mineira Lotus Lobo, precursora da pesquisa com rótulos e latas antigas. Ali, a chef e historiadora Ju Duarte, da Cozinha Santo Antônio, em Belo Horizonte, assina uma seleção de ingredientes e quitutes ligados à cultura caipira. E a Casa Rio estreia no festival trazendo o universo carioca pela dança e pelo charme, também com videomapping.
A arquitetura ocupa outro eixo forte da programação. Pelo segundo ano, a Coral abre uma casa na Vila Matriz, com conversas de Rodrigo Ohtake, Laura Penna, Pedro Coimbra e Gustavo Penna, e visitas guiadas por Rodrigo Ohtake à exposição sobre a trajetória da OHTAKE.

Para chegar aqui, é preciso querer
Pergunto de onde vem a criatividade para amarrar uma programação desse tamanho, ano após ano. Simone não se preocupa com a falta de ideias. "Quando você entra numa roda, as coisas começam a aparecer", diz, sobre os projetos e as pessoas que chegam até eles. O desafio é outro. "É você não se perder no propósito. Vem muita coisa, às vezes com dinheiro envolvido, que resolveria o negócio. É se manter firme no que te trouxe até aqui."
Os números da edição passada mostram o alcance: em 2025, a Semana recebeu mais de 22 mil visitantes, 57% a mais que no ano anterior, de 92% dos estados brasileiros. Neste ano, Alagoas, Ceará, Pará e Rio de Janeiro vêm se apresentar em Tiradentes. "Eu nunca poderia imaginar que a gente ia receber outros estados", diz Simone. "Quando começou, eu nunca imaginaria que a Semana ia falar de Brasil. Hoje a gente fala de música, de gastronomia, de tudo."
Pergunto, então, de onde vem a vontade de tanta gente de estar ali. Simone arrisca uma resposta, com a ressalva de que é um sentimento. Acredita que o festival abriu portas para outras iniciativas no interior, e que fez isso colocando todos no mesmo plano. "Não importa se é o designer famoso ou o artesão que está no interior do interior, mas tem um trabalho incrível. A gente trouxe também uma questão de classe. Botou todo mundo junto."
Junior acrescenta a questão do acesso. "Para você chegar aqui, você tem que querer muito estar aqui." O público que faz a viagem, diz, é qualificado num sentido que não é o financeiro. "É no sentido do sentimento mesmo. Ele está vindo buscar conteúdo, está vindo para se alimentar."

Por que eles estão no The Cover
Antes de encerrarmos, Junior faz questão de dizer o que Simone, segundo ele, não diz de si mesma. "A Simone é muito modesta." Conta que muita gente bem posicionada no mercado chega a Tiradentes para lhe contar que recebeu dela a primeira capa. "Ela sempre foi uma boa curadora."
Simone tinha dito que o festival não tem explicação. Depois de ouvir os dois, acho que a explicação está nesse elogio. A Semana Criativa aplica a uma cidade o que uma boa editora aplica a uma revista: escolhe a palavra, como o design feito à mão no tempo em que artesanato afastava patrocinador; escolhe quem aparece, com o mestre artesão ao lado do designer famoso e uma curadoria que, desde a primeira lista, pergunta quem está faltando; e decide o tamanho, porque uma Tiradentes cheia demais deixaria de ser vivida. Junior traz a outra metade do método, a de quem nasceu ali e sabe que, numa cidade pequena, produzir depende de gente, e não de fornecedor.
O The Cover registra quem abriu um caminho antes que ele se tornasse consenso. Em 2017, quem poderia patrocinar achava os dois doidos. Em 2025, mais de 22 mil pessoas pegaram a estrada até Tiradentes. No fim da chamada, confesso aos dois que ainda não fui à Semana. Junior já tinha avisado que, para chegar lá, é preciso querer muito. Depois desta conversa, eu quero.
Serviço
10ª Semana Criativa de Tiradentes De 15 a 18 de outubro de 2026, em Tiradentes (MG). Atividades em sua maioria gratuitas; algumas oficinas são pagas. Programação completa no site oficial: semanacriativadetiradentes.com.br
Casa Coral Vila Matriz. De quinta a sábado, das 9h às 21h; domingo, das 9h às 18h.
Casa do Arado Villa da Matriz, Rua Santíssima Trindade, 92. De 15 a 17 de outubro, das 10h às 21h; dia 18, das 10h às 17h.
Fotos: Eugênio Savio (retrato), Cacá Bratke (edição de 2025) e Douglas Mendes (cidade). Arte da Casa D'Preto: Thiago Guimarães.
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A geografia sonora do Atlântico virou imagem e espaço.
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