Augusto Paz: o designer de moda que começou a desenhar no Excel
Formado em têxtil e moda pela USP, ele passou dez anos na tecnologia antes de abrir um ateliê. Um burnout o devolveu ao crochê que a avó ensinou aos oito anos. A terceira coleção, apresentada nesta terça-feira em São Paulo, nasceu de uma planilha de vendas.
Texte de
Texte de Caíque Nucci
Rédacteur en chef · 25 août 2026
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Quando a assessoria avisou Augusto Paz que uma publicação de tecnologia queria entrevistá-lo, a primeira reação dele foi de estranhamento. Estilista formado em têxtil e moda pela USP, dono de um ateliê de roupa sob medida na Avenida Paulista, ele não via a ligação. Foi olhar a própria trajetória e encontrar dez anos dentro do setor.
Antes do ateliê, Augusto chefiou uma equipe de análise de sentimento em mídias sociais quando a internet brasileira ainda era terreno aberto, atendeu dezenas de produtos da Rede Globo, passou por agência de marketing e terminou como gerente de contas corporativas em uma empresa de inteligência artificial voltada à análise de texto. Saiu de lá depois de um episódio de burnout.
Foi na licença que ele retomou o crochê que a avó tinha ensinado quando ele tinha oito anos, os dois sentados no quarto vendo novela. Fez uma blusa para si, publicou, e vieram as perguntas de quanto custava e onde comprava. Fez a segunda, e a procura se repetiu. Juntou o que tinha poupado e começou a costurar na sala de casa.
A década que ele achou perdida
O prólogo tecnológico não é digressão, e ele insiste nisso. Por um tempo achou que tinha desperdiçado a década. Depois entendeu o contrário. Na empresa de inteligência artificial, o trabalho era atender grandes contas, empresas que não se contentavam com o produto de prateleira e precisavam de uma solução construída sob medida. É a mesma frase que descreve o ateliê. "Atender o Banco Itaú hoje me ajuda a atender um cliente que tem um nível de exigência super alto, que tem muita atenção a detalhe, que precisa de um cuidado muito especial."
Pânico de estoque
A escolha pelo sob medida, em vez de uma marca nascida digital, vem daí. Ele gosta de acompanhar a confecção, a modelista, as provas de tela, mesmo quando essas etapas acontecem fora do seu espaço. "Eu sou muito chatonço nesse sentido", diz, no aumentativo que ele usa para chato. E tem uma recusa que formula sem meio-termo: "eu tenho pânico de estoque". Roupa parada é dinheiro parado, e é também uma pergunta que ele prefere não ter de responder. "O mundo não precisa de mais uma roupa."
O começo não foi organizado. Perguntado sobre a primeira coleção, ele se descreve como um labrador em carreira desabalada. A formação na USP tinha sido ampla, com cadeiras de fiação, química, física, criação e administração, mas o interesse dele na época era outro: o trabalho de conclusão comparou modelos sociológicos de expressão de tendência com suas contrapartes estatísticas. Preencher ficha técnica de produto não estava no horizonte. "Foi aí que eu tomei na cabeça." Aprendeu produção na prática, e gastou dinheiro que não voltou.



A coleção que saiu de uma planilha
Esse é justamente o ponto em que a maioria das marcas independentes brasileiras para. Muitos designers lançam uma coleção e não chegam à segunda. O que destravou para Augusto tem nome, e ele diz em forma de piada. "Eu comecei a desenhar no Excel." A terceira coleção nasceu de uma análise de vendas feita com o mesmo método que ele aplicava em consultoria: o que vendeu, o que não vendeu, onde havia mercado que ele não estava atendendo.
A resposta apareceu quando fechou o ano. Metade do faturamento tinha vindo do público masculino, em produtos de ticket baixo. A origem foi acidental. No desfile anterior, ele entrou na passarela ao fim da apresentação vestindo uma peça piloto, uma camisa de algodão cru. Choveram pedidos de um público para o qual a marca nunca havia desfilado. Este ano desfila, com camisaria de ticket menor ao lado de alfaiataria, jaquetas e costumes.
A roupa é um sistema
A leitura que ele faz do próprio ofício explica a virada. "A roupa é um sistema. A roupa não é obra de arte, estilista não é artista." Pode ser, ele concede, e lembra de quem trocou a moda pelo cinema, mas trata a exceção como exceção: o estilista é um designer de forma e função, e moda é arte aplicada. A consequência é uma pergunta que ele faz diante de criações espetaculares. "Beleza. Vendeu quanto? E aí, virou o caixa esse mês?"

Sobre a própria imagem, ele é menos confortável. Reconhece que a figura do designer vende, e que o crescimento da marca vem de indicação, de cliente que chega por amigo de amigo. Reconhece até o mecanismo: leu, ainda na época em que analisava mídias sociais, sobre os especialistas de nicho cuja opinião pesa mais do que o alcance. Mas traça um limite. "Você não vai saber o que eu como, você não vai saber como é o meu closet, você não vai saber da reforma da minha casa. Isso para mim é inegociável."
Onde a inteligência artificial entra, e onde não
A relação com a tecnologia dentro do ateliê é dividida em duas. Na parte administrativa, ele ganhou tempo: o que antes era catar milho para montar tabela de precificação hoje sai de um comando escrito. No criativo, o pé atrás é firme. Testou gerar renderização de croqui com inteligência artificial e parou, com medo de ver uma peça sua reaparecer numa plataforma de comércio estrangeira sem que tivesse autorizado. "Esse negócio não tem regulação nenhuma." Sobre lookbook feito por máquina, a comparação dele é com foto falsa em aplicativo de encontro.
O fazer da roupa, esse não mudou. Continua dependendo de costureira, piloteira, cortadora e modelista, profissões que ele vê rareando no mercado. "Eu espero que o TikTok ajude a aguçar o interesse da nova geração."
Perguntado sobre a chegada das plataformas asiáticas e a discussão de importação, ele não morde a isca. O cliente dele também compra ali, diz, mas por outra ocasião de compra. O que o preocupa é outra coisa: dólar, petróleo, porque poliéster é plástico e plástico é petróleo, e mudança climática, porque é ela que empurra para cima o preço do algodão e da lã. "Isso me preocupa muito mais do que os contêineres chegando da China."
Uma coleção sem tema
A coleção que apresenta nesta terça-feira não tem nome nem tema, e ele brinca que isso foi o desespero da assessoria. A decisão foi metodológica. "Eu percebi que a gente ficava muito subordinado à história." Sem narrativa a sustentar, sobrou tempo para pesquisa de material, e ele foi à Première Vision, em Paris, e à Turquia, além de trabalhar mais de perto com a Focus Store, parceira do ateliê desde a primeira coleção. Entraram tweeds coloridos, couros garimpados em lojas de refugo e pastilhas de acetato moldadas à mão. O stylist Heleno Manoel, no terceiro ano de parceria, atuou como consultor criativo.

O critério de sucesso, agora, é o objeto. "Eu não quero desfilar uma jaqueta para as pessoas perguntarem se aquilo tem a ver com a referência que estava no release. Eu quero desfilar uma jaqueta que se sustente por si só."
Ele chama isso de amadurecimento, da marca e da pessoa, e a origem é menos nobre do que soa. "Vem de um grande saco cheio que eu estou. De nhenhenhém, de historinha para boi dormir." Apresenta uma vez por ano, e prefere chamar de mostruário a chamar de coleção: é mostrar ao público o que o ateliê aprendeu a fazer no período, sabendo que o pedido que chega depois raramente é a peça que passou na passarela.
O que espera do futuro cabe em uma frase, e não é a de um plano de expansão. "Não quero mais probleminha desse tamanho. Eu só quero problemão, onde a minha atenção e o meu juízo são importantes." Define o método com a definição que dá de si mesmo. "Eu sou um ranzinza bem humorado."
Por que ele está no The Cover
O The Cover é o registro da casa, a lista dos nomes que estão construindo o amanhã, e cada edição acrescenta uma pessoa que fica ali para sempre. Foi ouvindo esta trajetória inteira que a escolha se impôs sozinha: dez anos vendendo tecnologia para grandes contas, um burnout, o crochê que a avó ensinou aos oito anos, e uma terceira coleção que nasceu de uma planilha de vendas. É um percurso que não cabe em nota de lançamento, e que só significa alguma coisa contado do começo. Era exatamente o caso de trazer o Augusto para a capa.
Ficha técnica
Augusto Paz, Desfile 2026. Fotografia de Zé Takahashi.
Do ateliê
Peças da coleção anterior, disponíveis para encomenda.


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O artista uruguaio Mauro Cosenza @mauro_cosenza, formado no circo e no teatro físico, apresentou Neo Botanica na Load Gallery @load.gallery
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