Walério Araújo / Weider Silveiro - Verão 2027
Entre o aboio e o espetáculo: Walério Araújo e Weider Silveiro vestem suas próprias histórias
Texte de
Texte de Sarah Rocksane Araujo
Rédaction, Mode et Beauté · 16 octobre 2026
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O encontro entre Walério Araújo e Weider Silveiro, amigos há mais de 25 anos que decidiram apresentar suas coleções de maneira independente, compartilhando a mesma ocasião sem abrir mão das singularidades de seus universos criativos.
No dia 12 de outubro, no Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, no centro da cidade, os estilistas dividiram a passarela em duas narrativas distintas, atravessadas por uma questão comum: como retornar às próprias origens para compreender o presente e imaginar outros caminhos para o futuro? A escolha pelo formato conjunto não apaga as diferenças entre as criações. Ao contrário, permite que elas existam lado a lado, em uma conversa construída pela amizade, pela experiência e pela compreensão de que cada processo exige um tempo particular para amadurecer.
Weider apresenta Aboio, coleção que transforma lembranças da infância no interior do Piauí em pesquisa sobre a silhueta feminina contemporânea, enquanto Walério revisita a experiência de participar do reality show A Fazenda para reorganizar emoções, imagens e referências de sua trajetória.

De um lado, a cadência de um canto sertanejo conduz a investigação sobre corpo, território e memória; de outro, a exposição pública, a disputa e a convivência forçada tornam-se matéria para uma coleção que transita entre contenção, humor e exuberância. São histórias que não nasceram conectadas, mas que encontram no retorno à essência um ponto de aproximação. A ocasião compartilhada também desloca a ideia de desfile como uma sucessão de imagens destinadas ao consumo imediato. Há, nesse gesto, uma vontade de preservar a autonomia criativa e permitir que as roupas sejam elaboradas de acordo com as técnicas e os ritmos necessários à sua execução. A moda aparece, assim, não apenas como produto final, mas como processo, memória e relação. Entre a intimidade de uma amizade antiga e a dimensão pública da passarela, Walério e Weider constroem um encontro no qual a independência não significa isolamento, mas a possibilidade de compartilhar espaço sem dissolver a própria voz.

Em Aboio, Weider Silveiro parte de uma lembrança afetiva para investigar como os códigos culturais do sertão nordestino podem encontrar novas formas de expressão na moda urbana. O título recupera o canto tradicional, de melodia suave e melancólica, entoado por vaqueiros para conduzir e reunir o gado. Antes de se tornar referência para a coleção, essa sonoridade já carregava uma maneira particular de se relacionar com o ambiente, com o trabalho e com os animais. Na infância do estilista, no interior do Piauí, o convívio com a atividade rural acontecia por meio das visitas à fazenda de seu padrinho, criador de gado, que lhe presenteava com bezerros cuidados pelos vaqueiros. Dessa experiência permanecem as imagens das selas, dos estribos, das manoplas e das vestes utilizadas na lida, objetos que agora atravessam um processo de tradução formal. Não se trata de transportar literalmente o universo rural para a passarela, mas de observar suas estruturas, proporções e modos de uso para descobrir outras possibilidades de construção. A pesquisa de silhuetas, elemento central no trabalho de Weider, ganha novos contornos por meio dos drapeados e dos volumes desenvolvidos com diferentes artigos de malharia da Nanete Têxtil, parceira de longa data do estilista.

O tecido deixa de ser apenas uma superfície sobre a qual se inscreve uma referência e passa a participar ativamente da arquitetura da roupa. A inspiração no gibão, veste ampla de couro usada pelos vaqueiros para proteger o corpo do contato com a vegetação durante a condução do gado, também orienta as linhas da coleção. Sua estrutura evoca proteção, resistência e mobilidade, características que encontram outras interpretações quando incorporadas ao vestuário feminino contemporâneo. Existe uma elegância própria na figura do vaqueiro nordestino, construída pela relação entre a função da roupa, a familiaridade com os instrumentos de trabalho e a responsabilidade de cuidar daquilo que sustenta a vida das famílias. É dessa combinação entre firmeza e delicadeza, utilidade e presença, que Weider extrai parte da força de sua proposta. A cartela de cores, marcada por off-white e caramelo, recebe nuances de vermelho que interrompem a sobriedade sem romper com a unidade visual. O contraste não funciona como adorno isolado, mas como parte de uma narrativa que aproxima as tonalidades terrosas da paisagem sertaneja de uma leitura sofisticada e atual. A coleção encontra sua identidade nesse movimento de síntese, no qual as referências regionais não limitam a criação a uma representação literal de lugar, mas oferecem um repertório vivo para experimentar novas formas de vestir.

Se Weider encontra na memória territorial uma forma de reorganizar seu repertório, Walério Araújo transforma uma experiência de exposição pública em matéria para investigar as próprias emoções. Entre setembro e dezembro de 2025, o estilista participou da décima sétima edição de A Fazenda, reality show do qual saiu em quinto lugar, depois de atravessar praticamente todo o período de confinamento. A vivência, que ele considera uma vitória de resistência mental, tornou-se o ponto de partida para uma coleção dividida em três blocos, nos quais as roupas acompanham diferentes momentos da experiência. A primeira parte é inteiramente branca e traduz o desafio de lidar com emoções em um ambiente de competitividade, vigilância e disputa. A escolha da cor também remete à neblina que encobria a casa em Itapecerica da Serra, cenário do programa, aproximando a atmosfera do confinamento de uma imagem quase suspensa. Nesse conjunto, a camisaria ganha dimensões amplas, e uma chemise com três mangas longas produz uma leitura bem-humorada da camisa de força.

A ironia não elimina a tensão da referência: transforma em linguagem visual a necessidade de conter reações e administrar sentimentos diante de um contexto em que cada gesto pode ser observado. Essa ideia reaparece nos adereços criados por impressão 3D, mãos posicionadas sobre os olhos, os ouvidos ou a boca, como representações dos momentos em que o estilista precisou controlar o que via, escutava ou dizia. A tecnologia de fabricação acrescenta uma camada contemporânea ao repertório de Walério, mas é o significado do gesto que conduz a leitura. O corpo, vestido e adornado, torna-se um campo de disputa entre aquilo que deseja expressar e aquilo que precisa silenciar. No segundo bloco, a paleta se desloca para o preto e o dourado, cores associadas à celebração da chegada do estilista ao top 10 do programa.
Cada look recebe um número de 1 a 10, em referência à tradição dos desfiles de alta-costura dos anos 1960 que celebravam a presença de um criador entre os dez finalistas. A sequência transforma o resultado do reality em uma espécie de cerimônia particular, na qual a roupa registra a passagem por uma experiência de resistência e reconhecimento. A competição, antes vivida como pressão cotidiana, ganha uma forma visual que permite reorganizar seu significado. Em vez de reproduzir a narrativa televisiva, Walério seleciona seus códigos e os converte em elementos de estilo, fazendo da coleção uma espécie de arquivo pessoal no qual tensão e celebração coexistem.

Entre o aboio que atravessa a paisagem sertaneja e o espetáculo que transforma a experiência televisiva em linguagem, Walério e Weider lembram que criar também é escolher o que merece permanecer, o que precisa ser reinventado e quais histórias ainda podem encontrar novas formas de chegar ao mundo.
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