A luz virou material de construção
Em Seul, um grupo de artistas levanta espaços que existem apenas enquanto ficam acesos. Entre uma encomenda de uma casa relojoeira de dois séculos e um palco de balé numa usina desativada, o trabalho deles explica por que tantas marcas pararam de contratar cenário e passaram a encomendar experiência.
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Escrito por Caíque Nucci
Editor-chefe · 4 de setembro de 2026
Há um tipo de obra que não cabe em caixa de transporte. Ela chega ao lugar em cabos, refletores, espelhos e um computador, ocupa a sala inteira por algumas horas e desaparece quando alguém desliga a chave. Não sobra objeto para pendurar na parede nem para guardar em reserva técnica. Sobra a lembrança de ter estado dentro.
O grupo coreano knovcompile trabalha exatamente nesse ponto. Fundado em Seul em 2019, reúne artistas que tratam luz e som como material de obra, do mesmo jeito que um arquiteto trata concreto e vidro. A lista de materiais que eles próprios declaram é curta e reveladora: laser, LED e desenho de iluminação; composição, mixagem e masterização de som; controle em tempo real com rastreamento de movimento e sensores; e estrutura, que o grupo projeta, fabrica e instala. As quatro linhas dizem mais sobre o ofício do que qualquer manifesto: eles compõem a trilha, escrevem o sistema que reage ao público e ainda soldam o suporte que segura tudo.

Um relógio explicado por luz
A encomenda mais recente veio da Breguet, casa relojoeira fundada no século dezoito. O trabalho se chama Movement e é uma instalação audiovisual montada em Seul, no bairro de Nonhyeon. A ideia é simples de enunciar e difícil de executar: traduzir o movimento de um relógio mecânico, aquele conjunto de peças que faz o ponteiro andar, em uma estrutura de luz que o visitante atravessa a pé.
O resultado é uma floresta de hastes luminosas suspensas numa grelha de metal, refletida no piso escuro. Quem olha de frente vê um corredor que parece não terminar. Quem anda pela lateral vê a mesma grelha se desmanchar em profundidade. A palavra tradição aparece impressa no ar em pontos precisos, ora legível, ora invertida, conforme o ângulo. É um comentário sobre tempo feito com o único material que não se pode empilhar.


Um balé dentro de uma usina
No mesmo período, o grupo assinou Invariable, apresentado como espetáculo solo na Power Plant Seoul e selecionado por um programa público coreano de arte convergente. Ali a proposta se inverte: em vez de traduzir um objeto, a luz vira a única forma de perceber a passagem do tempo dentro de um espaço enorme e vazio.


As fotografias da montagem mostram bailarinos dentro de cones e planos de luz que se comportam como paredes. O corpo entra, atravessa, e a parede continua ali. Não há projeção sobre a pele nem tela ao fundo. O que existe é laser cortando névoa, e a névoa dando ao feixe uma superfície onde ele pode virar arquitetura. A trilha da peça foi lançada depois como álbum, o que diz algo sobre a ambição do grupo: a música não é acompanhamento, é parte da obra e sobrevive a ela.


Trinta e cinco projetos, e a maioria com marca no crédito
O que torna o caso interessante para quem trabalha com marca não é a parte de galeria. É o trânsito.
Entre 2019 e 2026 o estúdio assinou trinta e cinco projetos comerciais sem trocar de linguagem. Fez a experiência do Museu Nacional da Coreia em parceria com o BLACKPINK, a direção visual de um videoclipe do grupo XG, os pop-ups coreanos da Disney para dois lançamentos, a celebração de cinquenta anos da La Roche-Posay, a interação da festa de aniversário do BTS para a HYBE e uma cápsula da ETRO. Passou por LANEIGE, Olive Young, Vans, Benetton, Lush e Adidas, esta última numa peça de laser apresentada na feira de arte de Seul em 2025.
É uma lista que costuma vir dividida em duas agências diferentes: uma para arte, outra para ativação. Aqui está no mesmo lugar, e essa é a novidade. A marca não contrata um fornecedor de estrutura e depois procura um artista que assine. Ela encomenda a obra a quem também sabe operá-la, e recebe de volta uma peça que aguenta ficar dez dias em pé numa loja e ainda funcionar num vídeo vertical de quinze segundos.

Por que isso chega até aqui
A economia da atenção mudou o cálculo. Uma vitrine bonita gera passagem. Uma sala em que a luz responde ao movimento de quem entrou gera registro, e registro circula. O investimento em experiência física deixou de ser despesa de ponto de venda e virou produção de conteúdo com endereço: o público filma, publica e distribui o que a marca montou, sem que ela precise comprar cada exibição.
Existe um risco embutido nesse modelo, e vale nomear. Quando a obra é feita para ser filmada, ela tende a virar cenário de foto e perder a razão de existir para quem está de corpo presente. O trabalho do knovcompile escapa disso por um motivo técnico: as peças foram desenhadas primeiro para o palco e para o corpo, com bailarino dentro, e só depois foram aplicadas a marca. A ordem importa. Quem começa pela câmera raramente consegue voltar.
Para quem acompanha moda, beleza e cultura, o recado é direto. A próxima disputa por atenção não será vencida por quem tiver a melhor foto de produto, e sim por quem souber construir um lugar onde a pessoa queira entrar. Esse lugar, cada vez mais, é feito de luz.
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