Em Belgrado, o Atlântico foi escutado antes de ser visto
Manja Ristić e Aleksandar Lazar transformaram a geografia sonora do oceano em imagem e instalação, e o que apareceu na parede tem menos a ver com paisagem do que com escuta.
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Escrito por Caíque Nucci
Editor-chefe · 1 de setembro de 2026
A primeira coisa que aparece é uma forma que ninguém consegue nomear de imediato. Pode ser uma anêmona, pode ser uma explosão parada no ar, pode ser um corte visto por microscópio. Ela flutua sobre o preto, feita de filamentos brancos e azuis que se abrem a partir de um centro escuro e denso. Por cima dela correm retângulos vermelhos e linhas finas, do tipo que uma máquina desenha quando está tentando entender o que está olhando.
Essa forma é som.

“Atlantis”, de Manja Ristić e Aleksandar Lazar, partiu da geografia sonora do Atlântico. A expressão é técnica e vale explicar: o oceano tem um relevo audível, feito de correntes, de gelo que racha, de bicho que se comunica a quilômetros de distância, de máquina que passa. Esse relevo muda conforme a água esquenta, conforme o gelo recua, conforme o tráfego aumenta. Ele é, ao mesmo tempo, uma paisagem e um registro do que está acontecendo com ela.
O que os dois fizeram foi tratar essa escuta como matéria de imagem e de espaço, e não como trilha. A exposição ocupou a Galeria Podroom, no Centro Cultural de Belgrado, com som, imagem em movimento e instalação, e as três coisas trabalhavam a mesma pergunta: o que resta de um lugar quando a única coisa que se tem dele é o barulho que ele faz.

No corredor, linhas azuis atravessam parede, teto e chão sem respeitar quina nenhuma. Elas têm a forma exata de uma onda sonora desenhada, aquela linha quebrada que qualquer programa de áudio mostra, só que solta do gráfico e esticada pelo prédio inteiro. Quem entra atravessa o som pelo meio.
É aí que a exposição faz o que interessa. Ela não ilustra o oceano. Ela mostra o oceano do jeito que um instrumento o entrega: como dado, como linha, como forma que precisa ser interpretada por alguém. Os retângulos vermelhos sobre a imagem central não são enfeite. São a marca do olhar que classifica, o mesmo tipo de moldura que um sistema de reconhecimento desenha em volta do que ainda está tentando identificar. A obra deixa esse olhar à mostra em vez de escondê-lo.

Até o título é escrito assim. Na parede da entrada, “Atlantis” aparece num alfabeto inventado, de sinais retos que lembram runa e lembram esquema técnico ao mesmo tempo. A palavra está lá, legível para quem se dá ao trabalho, e ilegível para quem passa rápido. É uma boa descrição do trabalho inteiro.
A escolha do Atlântico não é neutra. É o oceano que separa a Europa da América e que carrega, no fundo, a rota pela qual milhões de pessoas foram levadas à força. Falar da memória de um lugar a partir do som que ele guarda é uma decisão que ecoa mais longe do que a ecologia, embora a ecologia esteja ali, no gelo que racha e na água que esquenta.

A exposição ficou aberta de 11 de junho a 15 de agosto de 2026. As fotografias são de Ema Sabo.
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