AVX: o festival polonês que trata a tecnologia como material

Em Gdynia, LED, laser e realidade virtual entram no palco como matéria-prima, e não como acabamento.

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Caíque Nucci17 de agosto de 2026
Caíque Nucci

Escrito por Caíque Nucci

Fundador · 17 de agosto de 2026

Existe uma diferença entre usar tecnologia para embelezar uma obra e usar tecnologia como a própria matéria dela. O AVX, encontro de arte audiovisual organizado pelo estúdio Ksawery Komputery em Gdynia, no norte da Polônia, é construído inteiro sobre a segunda ideia. O nome vem de Audio Visual Experiment, e a palavra do meio é a que manda.

O programa não separa quem faz de quem mostra. Instalação, performance, concerto, live coding e oficina acontecem no mesmo espaço, o XVY Studio, e boa parte do que aparece ali é construída na frente de quem assiste. Fita de LED, laser, ambientes gerados em tempo real a partir do som e realidade virtual não entram como efeito aplicado no fim: entram como o material com que a peça é feita, do mesmo jeito que um escultor escolhe pedra.

A entrada é gratuita, com vaga limitada e inscrição, e a organização reúne estúdios de países diferentes. Ao lado do Ksawery Komputery aparecem o Lumus Instruments, da Holanda, e o AUSGANG Studio, da Eslováquia, além de artistas que trabalham sozinhos, como Michał Jurgielewicz e Piotr Ceglarek. A soma importa: cada um chega com uma ferramenta diferente, e o encontro é onde elas se atravessam.

Caos e ordem, em duas pastas

A performance mais direta desse princípio é a do XCES VR, projeto do compositor e performer tOmO. Ele improvisa sozinho, com controladores MIDI dentro da realidade virtual, e começa do zero: não há faixa pronta nem estrutura combinada antes. O que existe é um conjunto grande de instrumentos e efeitos digitais, separado em dois grupos que ele mesmo nomeia, caos e ordem.

É dessa divisão que o set nasce. Ele desce para as atmosferas mais sombrias, atravessa os glitches digitais, comanda uma máquina de bateria e linhas de baixo que não pede licença, e fecha numa parede de ruído. A luz responde ao som no mesmo instante, e as fitas de LED penduradas viram uma cortina vermelha que se move com a música. O registro é de Hollylook.

Escolher a ferramenta já é escolher a obra

O AVX não é um festival de música com projeção atrás. É um lugar onde a decisão técnica e a decisão estética são a mesma decisão, tomada ao vivo. Isso põe em questão o hábito de tratar tecnologia como camada final, aplicada depois que o trabalho já está pronto, que é como boa parte do mercado ainda opera.

Para quem constrói experiência de marca, de exposição ou de loja, a lição é prática e pouco confortável: a ferramenta escolhida no começo determina o que a peça pode ser. Trocar a ordem, e escolher a tecnologia no fim, é o que produz aquele resultado que funciona e não emociona ninguém.

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