Mural de Rachaduras
Escrito por
Escrito por Rafael Silvério
Moda · 14 de setembro de 2026
Este é um mapa provisório de rachaduras, feito por alguém que segue construindo a própria muralha ao mesmo tempo em que tenta entender por que a ergueu.
É incrível a quantidade de pessoas ao meu redor que, de alguma forma, direta ou indireta, me questionaram sobre autoestima.
A maioria delas está no Instagram, esse território onde tudo vira vitrine e onde a intimidade se converte em moeda de troca.
Vivemos dentro do que poderíamos chamar de uma nova fogueira das vaidades: o soft porn emocional, a exposição como barganha, o corpo e o afeto disputando engajamento. Nesse mercado da imagem, quase ninguém sabe mais distinguir autoestima de fome por validação.
São coisas parecidas na superfície e opostas na raiz. Guy Debord já chamava a atenção, décadas atrás, para o fato de que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens que consumimos, mas uma relação social entre pessoas que passa a ser mediada por elas. O que hoje chamamos de feed é apenas a versão mais eficiente dessa mesma engrenagem: já não trocamos experiências, trocamos representações de experiências.
Nenhuma das pessoas que me procuraram fazia parte do meu círculo mais próximo. Ainda assim, as falas se repetiam quase como um coro: "parei de olhar para mim", "tenho medo do que podem me dizer". Frases pequenas que revelam algo maior: o quanto o julgamento alheio virou instância de controle sobre a própria imagem que fazemos de nós mesmos.
Em uma dessas conversas, uma pessoa me disse que já não conseguia se vestir de manhã sem pensar em como aquilo renderia como conteúdo. Outra, que tinha medo de mudar de opinião publicamente, como se toda transformação precisasse ser justificada a uma plateia.
Michel Foucault descrevia esse fenômeno décadas antes das redes existirem, ao falar do panóptico: a vigilância deixa de precisar de um vigia real quando internalizamos o olhar do outro e passamos a nos policiar sozinhos, o tempo inteiro, por precaução.
Meu discurso também falha. Não sei precisar o momento em que comecei a projetar, para quem está fora da minha zona de conforto, uma autoconfiança que nem sempre sinto enraizada em mim. Parece que, para falar de amor próprio em público, é preciso antes esconder todas as rachaduras da muralha que erguemos em nome da autoaceitação. Uma espécie de curadoria da própria vulnerabilidade.
Judith Butler ajuda a nomear essa sensação quando propõe que a identidade não é algo fixo que simplesmente expressamos, mas algo que repetimos e encenamos até parecer natural. Se isso é verdade para o gênero, como ela argumenta, é verdade também para a confiança: performamos segurança tantas vezes que passamos a confundir a performance com a coisa em si.
É aí que a velha citação de Audre Lorde volta a fazer sentido inteiro, como uma bússola:
"O erótico é um lugar entre a incipiente consciência de nosso próprio ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um senso íntimo de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Porque uma vez tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecido seu poder, não podemos, por nossa honra e respeito próprio, exigir menos que isso de nós mesmas." (Audre Lorde, The Uses of the Erotic)

Lorde escrevia isso como mulher negra e lésbica num contexto que insistia em normatizar seu desejo e sua existência. Ainda que minha experiência seja outra, a lógica é a mesma: em uma cultura que lucra com a nossa insegurança e vende de volta soluções para o vazio que ela mesma cria, reconhecer o próprio poder interno é um gesto quase insurgente. Vivemos sob uma engenharia muito bem calculada. Primeiro nos convencem de que falta algo em nós, o corpo errado, o rosto insuficiente, a vida pouco desejável aos olhos dos outros. Depois nos vendem, na sequência do mesmo feed, a solução para esse vazio recém-instalado.
É um ciclo fechado, quase perfeito em sua crueldade: a insegurança vira produto, e o produto precisa de insegurança para continuar existindo. bell hooks, ao escrever sobre amor, insistia que amar a si mesmo, dentro de uma cultura organizada em torno da dominação e da comparação, é um dos atos mais políticos que existem, porque recusa a lógica da escassez que sustenta esse mercado.
O filósofo Byung-Chul Han descreve algo parecido quando fala da sociedade do desempenho, aquela em que já não precisamos de um chicote externo para nos explorar; nós mesmos assumimos o papel de patrão e empregado, cobrando de nós a otimização constante. Aplicado à imagem, isso significa que não basta existir; é preciso performar uma versão vendável de si, sob pena de desaparecer do jogo. Jean Baudrillard iria além: diria que essa versão vendável, de tanto ser repetida, substitui a coisa original, e passamos a viver de simulacros de nós mesmos, cópias sem original que ainda assim circulam como se fossem verdade.

Por isso, reconhecer o próprio poder interno se torna um gesto quase insurgente. Não porque seja um ato espetacular, mas justamente pelo contrário: é recusar a lógica do espetáculo. É dizer que minha completude não depende de aprovação alheia, que meu valor não é um dado a ser lançado no mercado da atenção. Nesse sentido, virar-se para dentro, num tempo que lucra com o nosso olhar voltado para fora, é quase um ato de desobediência.
E talvez seja essa desobediência silenciosa, sem palco e sem plateia, a forma mais honesta de resistência que ainda nos resta. Na minha maturidade, ou talvez minha imaturidade, fiz as pazes com a espiritualidade. E, nessa nova congregação, também me afastei de caminhos que deixaram de fazer sentido. Nesse aprendizado, dizer não se tornou fundamental para que eu possa me impor ao mundo. Um segundo nascimento, mas consciente de toda a gnose que já habito, sem comprar uma versão disforme de mim mesmo moldada pelo olhar e pelo julgamento alheio.
Há anos escrevo sobre autenticidade. Talvez este seja o momento mais frágil, e justamente por isso o mais potente, em que me encontro: a força de alinhar o que demonstro ser com quem sinto que sou. Existe uma espécie de energia resolutiva que me deixa combativo. Mesmo com tantos sóis a eclipsar, consegui abrir, em tempos adversos, uma fenda no tempo e no espaço onde me protejo. E eu, que fui sempre demasiadamente humilde, hoje me arrisco a ser insolente. Tento correr riscos, mas de forma consciente.
Há algo de profundamente contraditório em precisar anunciar publicamente que se está em paz consigo mesmo. A própria necessidade de declarar já denuncia o quanto essa paz ainda é frágil, ainda em construção. Talvez por isso eu desconfie de quem fala de autoestima sem hesitação, como quem lê um roteiro decorado. A vida, quando observada de perto, raramente é linear o suficiente para caber em uma legenda.
Simone Weil escrevia sobre a atenção como a forma mais rara e pura de generosidade. Penso nisso quando reparo o quanto nossa atenção, hoje, é o que primeiro nos tira, antes mesmo do corpo ou da voz. Dedicar atenção verdadeira a algo, ou a alguém, inclusive a si mesmo, exige presença, e presença é justamente o que o algoritmo torna cada vez mais raro.
Cultivar autoestima, nesse cenário, começa por reaprender a prestar atenção sem pressa, sem plateia, sem a expectativa de que aquilo vá gerar retorno.
Não tenho a pretensão de oferecer uma resolução limpa para essa inquietação. Prefiro habitá-la. Há uma honestidade maior em admitir que ainda vacilo, que ainda me pego buscando aprovação onde deveria buscar apenas verdade, do que em fingir uma serenidade que não sinto por inteiro. A escrita, para mim, cumpre esse papel: não o de provar que cheguei a algum lugar, mas o de registrar o percurso enquanto ele ainda dói e ainda ensina.
Se existe alguma forma de liberdade possível dentro desse sistema que lucra com nossas inseguranças, ela provavelmente não está em vencê-lo de fora, mas em desertar dele por dentro, silenciosamente, todos os dias, até que o gesto de se pertencer deixe de parecer resistência e volte a ser, simplesmente, vida.
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