A escala que o olho não alcança

O francês Mathieu Le Sourd, que assina MAOTIK, constrói salas que reagem a quem entra nelas. A instalação Inner Life, já montada dentro de uma piscina convertida em centro de arte, está a caminho de São Paulo.

Escrito por

Caíque Nucci10 de setembro de 2026
Caíque Nucci

Escrito por Caíque Nucci

Editor-chefe · 10 de setembro de 2026

Existe uma pergunta simples por trás de quase tudo o que MAOTIK faz, e ela não é sobre tecnologia. É sobre distância. A que distância é preciso estar de uma coisa para enfim enxergá-la? Perto demais e ela vira textura sem sentido. Longe demais e ela desaparece no conjunto. O trabalho do artista francês vive nessa régua, e o que ele chama de obra costuma ser o instante em que a régua se mexe.

Mathieu Le Sourd assina como MAOTIK desde que começou a construir ambientes imersivos, instalações interativas, esculturas arquitetônicas digitais e performances audiovisuais. A descrição soa técnica, e o efeito no corpo não é. Quem entra numa sala dele entra num lugar que percebe a própria presença e responde a ela.

Uma piscina, e depois São Paulo

O Inner Life é a obra que melhor resume esse método. É uma instalação interativa em que o público não aperta botão nem veste equipamento: a interação é caminhar. O sistema acompanha o movimento das pessoas no espaço e, a cada dois minutos, troca de perspectiva, simulando os níveis de aumento de uma lente de microscópio. A cada troca mudam os visuais, muda o som e muda a maneira como o espaço responde ao passo de quem está lá dentro.

A ideia é que o visitante atravesse escalas do mundo microscópico sem sair do lugar, e que várias pessoas façam esse percurso ao mesmo tempo, com trajetórias que se cruzam. A imagem e a trilha são geradas na hora, não são vídeo gravado rodando em repetição. Sons de natureza e ritmos discretos se acomodam ao que está sendo desenhado na parede naquele segundo.

A obra responde ao passo de quem atravessa a sala

A obra ficou em cartaz na Stará Tržnica, em Bratislava, entre junho e setembro de 2022, e na Kunsthalle de Košice, na Eslováquia, entre junho e setembro de 2023. A sede de Košice tem uma particularidade que interessa à obra: é uma antiga piscina pública convertida em centro de arte. Um espaço projetado para conter água passou a conter uma simulação de vida microscópica, e a arquitetura fez metade do trabalho.

Como se aprende a fazer isso

A formação explica parte do resultado. MAOTIK é graduado em Digital Media Production pelo London College of Communication, em Londres, e mestre em Artes Digitais pela Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. Depois passou para o outro lado da sala de aula e lecionou design interativo, design generativo e ambientes de realidade aumentada e virtual na CODE University, em Berlim.

O que ele leva desse percurso não é uma ferramenta, é uma postura. Os programas que usa são feitos por ele, sob medida para cada obra, e o desenho acontece em tempo real. O algoritmo não entrega um arquivo pronto: ele improvisa dentro de regras, e o artista ajusta essas regras enquanto a obra acontece. É mais perto de reger do que de renderizar.

O corpo de trabalho

Antes do Inner Life veio o Omnis, apresentado no MIRA Festival: uma projeção em 360 graus sobre uma tela circular de 25 metros, gerada na hora, que propõe ao espectador pensar a percepção do espaço junto com a noção de tempo. É a mesma pergunta da escala, feita pelo lado de fora em vez do lado de dentro.

O solo do teatro vira projeção durante a colaboração mais recente de Maotik
O solo do teatro vira projeção durante a colaboração mais recente de Maotik

Mais recentemente ele assinou o Signal Loop, instalação em cartaz na Hungria dentro do programa Ligeti, e o In This World, obra imersiva de luz, som e imagem em movimento que trata de como a conexão permanente reorganiza a percepção. Em 2024 apresentou o Beyond Echoes, feito com o artista sonoro Nikcolk Void, numa colaboração em que a trilha não ilustra a imagem, ela negocia com ela.

Como uma instalação dessas é feita

O galpão vazio é o ponto de partida. Antes de qualquer imagem existir, existe um edifício com sua própria memória, sua acústica e seus defeitos, e é sobre ele que a obra é calibrada.

O espaço antes da montagem, ainda em obra
O espaço antes da montagem, ainda em obra

Depois vem a camada de luz, que não decora a arquitetura: ela a redesenha. As linhas seguem as vigas, os dutos e as escadas que já estavam ali, e o prédio passa a ser o suporte da obra em vez do seu cenário.

O mesmo espaço tomado pela instalação
O mesmo espaço tomado pela instalação

A lista de lugares por onde essas obras passaram diz muito sobre o trânsito do artista entre circuitos que raramente conversam. Ele já esteve no Mutek e no Sónar, festivais de música e arte digital, e também na Art Basel, na Frieze London e na FIAC de Paris, que são feiras de arte. Esteve na Ars Electronica, em Linz, no British Film Institute, em Londres, no Signal Festival, em Praga, no museu de ciência Miraikan, em Tóquio, no B39, em Seul, no Funkhaus, em Berlim, na Bienal de Veneza, na Fundação Serralves, no CCCB e na Filarmônica de Paris.

Beyond Echoes, de 2024, com o artista sonoro Nikcolk Void

Ele já esteve aqui

Há um detalhe que o público brasileiro costuma não saber: MAOTIK já expôs no Brasil, no Oi Futuro, no Rio de Janeiro. A vinda do Inner Life para São Paulo não é, portanto, uma estreia no país. É um retorno, agora com a obra que melhor sintetiza o que ele vinha perseguindo desde o começo.

E é uma obra que pede uma coisa rara em exposição de arte digital: que o visitante ande. Sem caminhada não há obra. O trabalho só existe enquanto alguém atravessa a sala, e some quando a sala esvazia.

A plateia diante da projeção circular, na colaboração mais recente do artista
A plateia diante da projeção circular, na colaboração mais recente do artista
Maotik ao lado dos colaboradores, no fim da apresentação
Maotik ao lado dos colaboradores, no fim da apresentação

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