O Vácuo: Entre o Aviso e o Silêncio

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Rafael Silvério11 de setembro de 2026
Rafael Silvério

Escrito por Rafael Silvério

Moda · 11 de setembro de 2026

E se tudo o que conhecemos, na verdade, estivesse se diluindo mais rápido do que nossa percepção nos deixa ter consciência, isso nos mudaria como? E se entre o aviso e o silêncio estivéssemos apenas sendo empurrados para um futuro sobre o qual nem temos o poder de decisão? Tudo seria uma questão de perspectiva?

Tem um tipo de medo que não grita. Ele escreve um memorando. Em 26 de agosto de 2026, Bill Gates publicou em seu site pessoal um ensaio de quase seis mil palavras, "A turbulenta era da IA chegou".

As escolhas que fazemos agora são decisivas", e no dia seguinte ainda subiu um vídeo no Instagram para reforçar o recado, além de conceder entrevistas ao New York Times, à Axios, à CNN e à Semafor. No texto, ele resume o dilema numa frase curta e afiada: a IA será, em suas palavras, "a maior igualadora já inventada, ou a pior fonte de injustiça". Ele escolheu as duas coisas ao mesmo tempo, como quem não quer escolher nenhuma.

Gates adverte que a irrupção da inteligência artificial afetará diretamente o mundo do trabalho. A automação, impulsionada pela inteligência artificial, colocará em risco tanto tarefas administrativas quanto físicas, gerando uma profunda transformação no mercado de trabalho.

A mensagem também alerta para a necessidade de antecipar respostas. Gates argumenta que a transição deve ser gerenciada com responsabilidade para que os lucros superem amplamente os aspectos negativos. Se isso não acontecer, a IA pode se tornar “a maior ameaça à equidade que os seres humanos já inventaram”.

Leio isso e penso em quantas vezes eu também tentei anunciar um medo em tom de otimismo. Quantas vezes coloquei uma ressalva gentil na frente de uma verdade que doía, só para que ela coubesse numa conversa educada. Gates tem razão em uma coisa: ele é um homem que lucrou com a máquina que agora o assusta, e ele mesmo admite isso no ensaio, reconhecendo os laços financeiros e institucionais que ainda mantém com a indústria que quer ver regulada. Isso não invalida o aviso, só o deixa mais pesado, mais ambíguo, mais parecido com essas confissões que a gente faz depois de já ter feito o estrago. Ele pede instituições novas, governança global, um lugar na mesa para decidir o que fazer com essa força. É um pedido de socorro vestido de proposta técnica.

Duas semanas depois, do outro lado do mesmo mês, veio um som diferente. Não o de quem lucrou e agora se benze. O de quem está dentro da sala de máquinas e decidiu sair correndo.

Em 8 de setembro de 2026, o pesquisador britânico Jacob Coxon, de 32 anos, anunciou pelo X que estava pedindo demissão da Anthropic, empresa por trás do Claude, depois de já ter passado pela OpenAI.

Numa sequência de posts que viralizou, ele escreveu que trabalhou três anos em pesquisa de pré-treinamento nas duas empresas e que nenhuma delas age com responsabilidade, afirmando que "estão correndo direto rumo a uma superinteligência autoaperfeiçoável, apostando com nossas vidas".

Em entrevista relatada pelo Metrópoles, ele foi além: disse que muitos executivos e pesquisadores de alto escalão medem as palavras na imprensa para parecerem sensatos, mas que em conversa privada expressam o mesmo medo, e que nenhuma outra atividade humana representa esse nível de perigo.

Não foi só ele. Evan Hubinger, que lidera a equipe de Alignment Science dentro da própria Anthropic, respondeu publicamente à saída de Coxon afirmando estimar em mais de 10% a probabilidade de a inteligência artificial levar à morte de toda a humanidade na próxima década, deixando claro que é uma avaliação pessoal, não um número calculado ou uma previsão oficial da empresa. Anna Wang, que atua com segurança de IAG na Anthropic e passou antes pelo Google DeepMind, escreveu que muita gente dentro da empresa quer desacelerar o desenvolvimento porque, nas palavras dela, ainda não existe um plano científico viável para resolver os riscos de uma IA que se autoaperfeiçoa recursivamente. Drake Thomas, outro funcionário da empresa, disse respeitar a decisão de Coxon de não participar de um desenvolvimento que ele considera capaz de gerar riscos em escala planetária.

O que me interessa aqui não é debater se o número é dez por cento, ou se é exagero, ou se é catastrofismo disfarçado de responsabilidade. O que me interessa é a distância entre o texto de Gates e o fio do Coxon. Uma fala de fora, com tempo de revisão, com agenda de imprensa marcada. O outro fala de dentro, no calor de uma demissão, sem parar para calcular o efeito da frase.

Os dois, no fim, estão dizendo a mesma coisa com sotaques diferentes: a coisa que estamos construindo já é maior do que a nossa capacidade de dizer não a ela. Gates chama isso de "época turbulenta". Coxon chama isso de aposta com a vida de todo mundo. Eu não sei que nome dar, mas reconheço o gesto, porque é o mesmo gesto de quem continua dentro de uma relação, de um trabalho, de uma família, sabendo que algo ali já ultrapassou o ponto de controle, e mesmo assim continua, porque sair parece mais assustador do que ficar.

Não vou fingir uma conclusão limpa. Talvez a única coisa honesta a dizer seja isso: quando as pessoas que constroem algo começam a pedir, publicamente, que alguém as impeça, é porque elas já perceberam, antes de nós, que não conseguem parar sozinhas.

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