Kati Katona e o espaço que nenhum olhar consegue abraçar
A artista de new media radicada em Budapeste transformou um zepelim inflável de 2.000 metros quadrados numa projeção em 360 graus que desmonta, a cada segundo, a certeza de onde estamos.
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Escrito por Caíque Nucci
Editor-chefe · 14 de setembro de 2026
Entrar em IMMENSIA é aceitar que não será possível ver tudo. A obra de Kati Katona ocupa uma sala inteira com imagem, do chão ao teto e em todas as direções, e em cada ponto da superfície alguma coisa está mudando ao mesmo tempo. O olho escolhe um trecho, e enquanto isso o resto se transforma. É desse limite, e não de um truque de tecnologia, que a obra trata.
Um zepelim no meio do museu
IMMENSIA foi criada para Phantom Vision, exposição do Light Art Museum, em Budapeste, um dos primeiros espaços do mundo dedicados a colecionar, pesquisar e exibir arte feita com luz. A mostra reuniu cerca de 35 artistas húngaros e internacionais entre agosto de 2024 e julho de 2025, com curadoria de Barnabás Bencsik e Borbála Szalai. No centro dela, a obra de Katona ganhou uma arquitetura própria: uma estrutura inflável em forma de charuto, parecida com um zepelim, com 40 metros de comprimento e 2.000 metros quadrados de projeção, onde se entra por uma porta de eclusa e se encontra um ambiente de 360 graus com espelhos.

O título vem do latim e quer dizer espaço imensurável, infinito. Durante cinco minutos e vinte segundos, planos bidimensionais criam a ilusão de corpos em três dimensões, voltam a ser superfície e pulsam entre uma coisa e outra. Formas que parecem sólidas se dissolvem em cor e se refazem adiante. As cores e as figuras, no texto que o curador escreveu para a obra, funcionam como a tradução abstrata de pensamentos e sentimentos.

A percepção que só chega em pedaços
O ponto mais interessante de IMMENSIA está no que ela recusa. A imagem tradicional tem um plano só e um ponto de vista só, e quem olha sabe para onde olhar. Numa projeção que acontece em todas as paredes ao mesmo tempo, acompanhar tudo é fisicamente impossível. A percepção de quem está dentro se fragmenta, e é justamente essa incompletude que vira matéria da obra. Cada visitante monta a sua versão a partir do pedaço que conseguiu ver, e passa de espectador a coautor do que viveu ali.


De onde vem esse olhar
Kati Katona nasceu em novembro de 1995 e cresceu em Topolya, cidade pequena da Voivodina, no norte da Sérvia, correndo pelos campos, lagos e bosques da região, uma infância ao ar livre que ela mesma associa à presença da natureza no que cria hoje. Estudou na escola de design Bogdan Šuput, em Novi Sad, e se mudou para Budapeste para cursar media design na universidade METU, escolha influenciada pelas temporadas de infância na casa dos avós maternos na cidade. Vive na Hungria há dez anos. Artista de new media e designer, trabalha com animação generativa e 3D, instalação interativa e projection mapping, quase sempre partindo de elementos da natureza, de estruturas biomórficas, de padrões e de algoritmos. Sua pesquisa gira em torno de uma pergunta constante: como ambientes imersivos alteram a maneira como percebemos o espaço, e até onde a tecnologia pode redesenhar a fronteira entre o físico e o digital.
Desde 2016 ela participa de projetos de grande escala. Já expôs no Kanvas, em Dubai, no Cinema Mystica e no Light Art Museum, se apresentou como artista visual nos festivais Live Cinema, Patchlab e LPM, e teve trabalhos exibidos no Vivid Sydney, no White Night Melbourne, no Ghent Light Festival e no Zsolnay Light Festival, na Hungria.
Antes das grandes salas imersivas, ela passou por quase todos os formatos da imagem ao vivo. Como integrante da equipe da Global Illumination, trabalhou no sky mapping digital do réveillon de 2021 da Space Needle, em Seattle, projeto que depois recebeu um Emmy. Fez visuais para shows e festivais de música eletrônica como o Ozora e o Sziget, e criou com o músico Balázs Zságer a dupla audiovisual Žagar AV Experience, que se apresentou no Live Cinema Festival, em Roma, e no Patchlab Festival, na Cracóvia.



O que veio depois
A pesquisa sobre o espaço continuou em outros formatos. Em dezembro de 2024, Katona levou Continuum para a cúpula do festival Fotonica, em Roma, uma obra em fulldome que estende para o teto inteiro a mesma investigação entre dimensões físicas e digitais. Em 2025, Essentia estreou no Shining Shanghai Light Festival, na China, entre os 20 projetos finalistas. Ali o assunto muda de escala: em vez de um espaço infinito, a ideia de casa, construída em camadas de impressão, ritmo e luz, a partir da experiência de quem cresceu num país e se formou em outro.



Neste ano, Continuum também foi apresentado no Digital Canvas: Art Meets Technology, mostra de tecnologia criativa do Special Effects Group realizada com a Kanvas, plataforma de arte digital de Dubai.
A água é outro território recorrente. Ocean Anthology, um loop de vídeo meditativo sobre a tensão e a delicadeza das águas profundas, em que gotas sobem, se chocam e voltam a se dissolver no conjunto, esteve em 2025 na AI Art Gallery do AI for Good Global Summit, em Genebra, com curadoria da Kanvas.
Das salas infinitas à memória de um lar, o trabalho de Kati Katona volta sempre ao mesmo lugar: o espaço não é algo que vemos, é algo que o corpo tenta, e nunca consegue por completo, medir.
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IMMENSIA, de Kati Katona
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