Maja Petrić: a artista que escreveu a própria inteligência artificial

Ela construiu o próprio sistema de inteligência artificial em 2016, antes dos geradores comerciais, e hoje move esculturas com dados climáticos em tempo real. Em 2020, uma obra sua chegou a São Paulo pouco antes de a pandemia fechar os espaços culturais.

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Caíque Nucci18 de setembro de 2026
Caíque Nucci

Escrito por Caíque Nucci

Editor-chefe · 18 de setembro de 2026

Em 2016, quando ainda não havia gerador de imagem por inteligência artificial ao alcance de qualquer pessoa, a artista croata Maja Petrić decidiu construir o seu. Com o cientista da computação Mihai Jalobeanu, criou um sistema que batizou de AIEye e que segue usando até hoje, obra a obra.

O programa percorre a internet em busca de imagens de um mesmo fenômeno, identifica o que elas têm em comum e testa combinações de pixels até chegar a uma imagem que represente o conjunto. O resultado pouco lembra uma colagem. Está mais perto de um retrato estatístico de como o mundo fotografou aquele assunto. Petrić aplicou o método ao céu e produziu uma série de paisagens de incêndios florestais, poluição do ar, desmatamento e furacões.

"A internet é como um ampliador dos arquétipos do nosso tempo", disse ela ao The Seattle Times, em setembro de 2019. "Eu não estou dizendo o que é poluição do ar. Estou aprendendo com a internet o que ela é."

Visitante diante de uma caixa de luz da série Lost Skies, com imagem gerada pelo AIEye. Imagem: Maja Petrić Studio.
Visitante diante de uma caixa de luz da série Lost Skies, com imagem gerada pelo AIEye. Imagem: Maja Petrić Studio.

A inteligência artificial como pincel

A relação de Petrić com a inteligência artificial é anterior à popularização do assunto. Em 2018, em entrevista à Deutsche Welle, ela defendeu que artistas precisam usar essas ferramentas e que elas precisam passar pelas mãos de artistas, porque vão moldar o mundo no próximo século, e disse que, como mulher e artista, queria participar dessa conversa desde já.

Anos depois, à edição croata da revista Grazia, em setembro de 2025, explicou de que lugar trabalha. Para ela, a inteligência artificial não é uma colaboradora, e sim uma ferramenta, como o pincel para o pintor. É a artista quem define as regras e o ritmo, e os algoritmos as executam em formas sempre novas. A ideia e a composição continuam humanas.

A visão não é ingênua. Em fevereiro de 2025, à publicação Minimal Collective, Petrić disse que procura se manter atenta aos danos que essas tecnologias podem causar, tanto pela lógica extrativa quanto pelas consequências ambientais. E à revista britânica FAD, em maio do mesmo ano, resumiu o que busca: "Uso a tecnologia como ferramenta de empatia, e não de espetáculo".

De Zagreb a Seattle

Maja Petrić nasceu em Zagreb e cresceu na Croácia durante a guerra que desfez a Iugoslávia. Tinha nove anos quando o conflito chegou ao país, e costuma dizer que aquele período moldou a maneira como entende a desconexão e o desejo de unidade.

Maja Petrić em seu ateliê, em Seattle. Imagem do vídeo Artist In the Studio, 2024, cortesia de La Moufle.
Maja Petrić em seu ateliê, em Seattle. Imagem do vídeo Artist In the Studio, 2024, cortesia de La Moufle.

A formação começou longe das artes visuais. Ela se graduou e fez mestrado em jornalismo na Universidade de Zagreb e, em 2001, mudou-se para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos. Em Nova York, cursou o mestrado em telecomunicações interativas da Tisch School of the Arts, na NYU. Depois seguiu para Seattle, onde concluiu em 2013 o doutorado em artes digitais e mídias experimentais na Universidade de Washington, com uma tese sobre como a luz pode transformar a experiência poética do espaço. É em Seattle que vive e trabalha até hoje.

Em 2019, recebeu o Lumen Prize na categoria de obras tridimensionais e interativas por We Are All Made of Light, instalação criada para o MadArt Studio, em Seattle. Em 2025, venceu a categoria inovação do Digital Art Awards, em Londres.

Quando o dado passa a comandar a obra

A partir de 2024, a matéria-prima mudou. Na série Specimens of Time, as esculturas deixam de representar dados ambientais e passam a ser movidas por eles. Cada peça é uma caixa de luz ligada a uma fonte pública de medição, que compara a condição do momento com a média histórica do lugar. Uma delas lê seis estações meteorológicas da Península Olímpica, no noroeste dos Estados Unidos, e ganha tons de vermelho sempre que a temperatura supera a média dos últimos vinte anos. Outra acompanha a temperatura do mar pelo programa de monitoramento de corais da agência oceânica americana, e uma terceira responde à qualidade do ar no Havaí.

Uma escultura da série Specimens of Time, movida por dado ambiental em tempo real. Imagem: Maja Petrić Studio.
Uma escultura da série Specimens of Time, movida por dado ambiental em tempo real. Imagem: Maja Petrić Studio.

Em junho deste ano, em Londres, a artista levou a ideia adiante. Em The Glitched Sublime, um braço robótico deposita uma papoula ártica sintética dentro da caixa de luz a cada anomalia de temperatura registrada no Ártico, e o título de cada obra traz a data e as coordenadas exatas do episódio. Segundo o texto da exposição, o sistema não interpreta nem simula. Apenas responde.

Em The Glitched Sublime, um braço robótico deposita uma flor a cada anomalia de temperatura registrada no Ártico. Imagem: Maja Petrić Studio.
Em The Glitched Sublime, um braço robótico deposita uma flor a cada anomalia de temperatura registrada no Ártico. Imagem: Maja Petrić Studio.

Em uma conversa publicada em 2025, Petrić disse que o sublime não pode ser fabricado, porque acontece no intervalo entre a fragilidade e a vastidão, entre a presença e a ausência. No trabalho dela, a tecnologia serve para registrar aquilo que está desaparecendo, antes que desapareça.

O capítulo brasileiro

O trabalho de Petrić já passou por São Paulo. Em 7 de fevereiro de 2020, a instalação Constelação: Somos Todos Feitos de Luz abriu no 23º andar do Farol Santander, no centro da cidade, com curadoria de Antonio Curti. Era a terceira versão da obra premiada em 2019, criada especialmente para o espaço paulistano.

Quem entrava encontrava uma sala escura atravessada por luz e um campo de estrelas que reagia ao próprio corpo. A luz era extraída da silhueta de cada visitante e permanecia no ambiente depois que a pessoa saía, somando-se às de quem havia passado antes. Na véspera da abertura, o curador resumiu a experiência: "Você vem, deixa seu rastro, vai embora e tudo que você deixa continua fazendo efeito nas pessoas seguintes."

A Constelação no 23º andar do Farol Santander, em São Paulo, 2020. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.
A Constelação no 23º andar do Farol Santander, em São Paulo, 2020. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.

A artista não pôde vir ao Brasil para a abertura, porque tinha acabado de dar à luz o primeiro filho.

A Constelação é uma obra que depende do encontro. Ela só se completa quando desconhecidos passam pela sala, um depois do outro, ao longo de semanas, e deixam ali a sua marca.

A luz era composta por algoritmo e mudava a cada visita. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.
A luz era composta por algoritmo e mudava a cada visita. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.

Poucas semanas depois da abertura, a pandemia fechou museus e centros culturais em todo o país, e a temporada, prevista para ir até maio, terminou antes do tempo, como tantas outras naquele ano. Há algo de simbólico nisso: uma obra feita para reunir estranhos num mesmo espaço foi interrompida justamente quando o mundo deixou de se reunir.

Vista da instalação paulistana, montada em três ambientes. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.
Vista da instalação paulistana, montada em três ambientes. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.

Uma constelação suspensa

Um registro em vídeo feito naqueles dias mostra a instalação acesa e sem ninguém dentro. É uma imagem estranha de ver, porque é o único estado em que essa obra não acontece.

E fica uma pergunta bonita no ar: por onde andam as silhuetas de quem passou por ali naquelas semanas? Falando da primeira montagem, em Seattle, Petrić contou que os pais vieram da Croácia para a abertura e que, meses depois de irem embora, as silhuetas deles ainda apareciam na constelação.

Cada visitante deixava um rastro de luz que ficava na sala depois que ele saía. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.
Cada visitante deixava um rastro de luz que ficava na sala depois que ele saía. Foto: Junior Viana, documentação oficial da exposição no Farol Santander.

Vista de hoje, a passagem por São Paulo tem uma ironia que nenhuma obra planejaria. Petrić dedicou a última década a construir máquinas capazes de preservar o que desaparece, seja um céu, um recife, uma floresta ou uma flor que dura poucos dias. Aqui, o que ficou suspenso foi a própria obra, e com ela o encontro que lhe dava sentido.

Em maio de 2020, com os espaços culturais fechados, a artista escreveu à revista indiana STIRworld que o isolamento pode agravar a solidão e o medo do outro, e que aquele era o momento de evocar, mais do que nunca, o sentimento de estar ligado a pessoas do passado, do presente e do futuro. É exatamente o que a Constelação faz, e talvez seja a melhor razão para que ela volte um dia a São Paulo.

Foto de capa: Maja Petrić trabalhando em seu ateliê. Imagem do vídeo Artist In the Studio, 2024, cortesia de La Moufle.

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