“O Brasil ainda valoriza pouco a moda autoral genuinamente brasileira”
Arquiteta de formação e estilista por insistência, Heloisa Strobel completa 13 anos de Reptilia com uma exposição de peças suspensas, uma coleção pensada para o calor das cidades e uma ambição que ela mesma resume em duas palavras: quero mais.
Escrito por
Escrito por Rafael Silvério
Moda · 21 de setembro de 2026
Há 13 anos, a curitibana Heloisa Strobel decidiu levar para o tecido o que tinha aprendido sobre volume, estrutura e proporção em quase uma década no escritório de Jaime Lerner. Nascia a Reptilia, marca que desde o primeiro corte recusou a lógica do descartável: peças pensadas menos como tendência e mais como arquitetura que se veste.
Ainda menina, Heloisa desenhava e customizava as próprias roupas: cortava, recortava, bordava, para desespero da mãe. Aos 16 anos queria cursar Moda, mas a pressão da família a levou para Arquitetura e Urbanismo, na PUC-PR. O desvio, ela mesma reconhece, foi decisivo. Foi na arquitetura que formou o olhar estético e funcional que hoje define as coleções, e foi ao lado do urbanista Jaime Lerner, seu primeiro empregador, que aprendeu a pensar em escala, proporção e impacto.
Foi o próprio Lerner quem a incentivou a levar a moda a sério, ao perceber que ela já desenhava uniformes e peças experimentais dentro do escritório. Heloisa voltou à universidade para uma segunda formação, em Design de Moda, e passou a disputar concursos. Em 2011, ficou em segundo lugar no Paraná Criando Moda, com uma coleção conceitual de couro de peixe e seda tingida à mão. Em 2013, venceu o BtoBe (Brazilians to Be), programa da Texbrasil com a Abit, e o prêmio abriu caminho para a primeira coleção comercial da Reptilia, apresentada em 2014 na feira Who's Next, em Paris.
Arquiteta-estilista
É assim que ela se define, e a dupla identidade orienta o método: toda peça começa pela modelagem no plano, antes na mesa e hoje no computador, e só depois ganha volume. Desde 2015, a produção se concentra no Atelier Reptilia, onde Heloisa forma a própria mão de obra com base em técnicas de desperdício zero. Em 2018, a marca recebeu o prêmio SESI ODS, chancelado pela ONU, na categoria Pequena Indústria, e Heloisa foi convidada pelo Ministério da Cultura a representar a moda brasileira na conferência dos BRICS, com um desfile na South Africa Fashion Week. No ano seguinte, entrou para a Casa de Criadores. Em 2021, levou a marca de Curitiba para São Paulo, com a loja conceito na rua Mateus Grou, que hoje reúne outras marcas autorais como Isaac Silva, Misci, Neriage e Plural.

Não me lembro do momento exato em que conheci Helo. Lembro da sensação: a de estar perto de alguém que desenha com vitalidade e, ao mesmo tempo, com discrição. Quando fui convidado para a exposição dos 13 anos, somada ao lançamento da coleção nova, fui com essa memória e com o orgulho de ver uma mulher se firmar num lugar hostil como a indústria da moda. Nos conhecemos na Casa de Criadores, em 2019, e ela continua a mesma anfitriã generosa.
Fragmentos
O evento aconteceu em 27 de agosto, no Instituto Brasileiro de Teatro, no centro de São Paulo. Helo me recebeu e percorreu comigo a história da marca e a coleção nova. No segundo andar, as peças-símbolo da Reptilia, como a Jaqueta Anjo e a Camisa Laço, estavam presas ao teto, sem acompanhar o movimento do corpo: um desfile suspenso, para que silhueta e volume falassem sozinhos.
Num mural de modelagem, ela mostrava o que faz com as sobras do corte. Enquanto a confecção de roupas costuma descartar cerca de 15% da matéria-prima nessa etapa, na Reptilia o índice fica perto de zero: os retalhos são guardados, organizados e voltam, uma vez por ano, numa série de peças exclusivas e limitadas. A linha nasceu na pandemia e se chama Fragmentos.

"Quero mais"
Quando ela se aproximou para a entrevista, falei do nosso percurso e perguntei se tudo o que tinha conquistado era suficiente.
"Eu acho que sim. Faz seis anos que eu moro em São Paulo, e São Paulo me mudou bastante, mas sem que eu perdesse a minha essência. Eu sou muito feliz e privilegiada em trabalhar com moda, mas a cidade vai deixando a gente mais rápida, talvez até um pouco mais cascuda. Eu não perdi o meu questionamento em relação à moda, e isso a gente traz da Casa de Criadores também: é o momento de questionar a nossa indústria, que precisa ser questionada. Vieram muitos aprendizados, de criação e de mercado. E ficou essa questão do fazer independente, de a gente poder se autofinanciar, trabalhar sem amarras. Eu consegui crescer a marca mantendo essa essência."
Insisti: é o suficiente?
"Quero mais. Não sei se posso falar isso, mas quero mais. Eu estaria sentindo mais suficiência se a gente estivesse recebendo da moda autoral aquilo que a gente está entregando. Falo por mim e por outras marcas autorais. Eu vejo o trabalho dos meus colegas, estou agora na Mateus Grou com vários deles, e a gente está entregando muito. O Brasil ainda valoriza pouco essa moda autoral genuinamente brasileira que está sendo feita aqui."

O que se aprende confeccionando
Empreendedora à frente de uma marca independente, Heloisa leva para a gestão o mesmo critério que aplica ao corte. Perguntei qual foi o maior aprendizado desses 13 anos.
"O trabalho coletivo. Quando comecei, eu tinha a visão de quem apenas desenhava, não confeccionava. A partir do momento em que você se dispõe a confeccionar, descobre que é um processo muito mais complexo do que desenhar, e aprende a força da coletividade: se você não tiver mãos que queiram comprar a sua ideia e trabalhar esse projeto com você, ele não vai para frente. Foi o que eu tirei de mais especial de ter saído da arquitetura para a moda."
Perguntei também de onde vem o fôlego criativo quando o negócio aperta.
"Os momentos difíceis ficaram mais frequentes depois que eu profissionalizei a gestão da marca. Quando você tem que criar olhando para planilhas, fica mais difícil. Hoje o meu fluxo criativo vem muito do que eu já fiz. Quando estou sem ideia, vou buscar no meu baú da Reptilia. E vem das gerações mais novas, que ainda têm um encantamento muito forte pela moda. Cada vez que eu converso com um grupo de estudantes, eu me sinto motivada de novo."
Na tarde do mesmo dia, a marca recebeu estudantes de graduação em moda de instituições convidadas, que puderam tocar as peças, ver a exposição de perto e conversar com Helo e a equipe.


Calor Urbano
O DNA da Reptilia é, antes de tudo, geográfico. A relação de Heloisa com Curitiba molda um vocabulário próprio, em que a racionalidade modernista da arquitetura local vira silhueta, corte e acabamento. É uma brasilidade que não se declara em estampas óbvias; se constrói em estrutura, com peças funcionais e escultóricas ao mesmo tempo, em que o gesto industrial convive com o artesanal. Para proteger essa autoria, ela se afasta do circuito de desfiles nos meses que antecedem cada coleção.
A nova, Calor Urbano, para o Verão 2027, parte das mudanças climáticas e de uma mulher que chega a atravessar mais de um clima no mesmo dia. O denim aparece em efeito jacquard, feito de algodão brasileiro certificado e rastreável, com os relevos programados no próprio tear, o que dispensa lavanderia e clareamento químico. As camisas, produto-referência da marca, ganham amarrações e pequenos laços. À paleta de neutros somam-se risca-de-giz, lilás, verde-cítrico e um vermelho mais intenso. Perguntei o que ela quis investigar desta vez.
"Eu quis muito trabalhar com torções. É a primeira vez que a gente trabalha com torção. Tentei no tecido plano e não ficou com o aspecto que eu queria, então no plano eu fui para as amarrações, os nós nas camisas. Na malha, eu consegui a torção fluida que eu queria: esse caimento de um tecido que se dobra em torno de si mesmo. As nervuras vêm da coleção passada, mas as torções, este ano, foram muito fortes para mim."
Para terminar, pedi que indicasse a um curioso o primeiro atributo pelo qual reconhecer uma peça da Reptilia.
"A volumetria, o shape arquitetônico. A palavra arquitetura está muito presente nas nossas roupas. Se for para começar por uma peça, eu falaria da Jaqueta Anjo, que é o nosso grande ícone, e das peças de linho, que é onde eu melhor consigo trabalhar essa volumetria."
Como a criadora, a Reptilia segue sofisticada, provocativa com leveza e, por mais discreta que se proponha, reconhecível à distância. Fica mais uma lembrança no meu arquivo de lembranças de Helo: a de que, num mundo hostil, ela guardou a generosidade entre as suas camadas, e a divide de tempos em tempos com todos nós.
Trouxe a Helo para o The Cover porque poucas pessoas que conheço fazem moda com tanto cuidado e tanta alegria. Em treze anos, ela construiu a Reptilia com as próprias mãos e com as mãos de quem aprendeu com ela no ateliê, sem perder o jeito de receber cada visita como se fosse a primeira. Ter a Helo na capa é celebrar essa trajetória e agradecer por tudo o que ela ainda vai nos mostrar.
Complete TV · Reels
A SP-Arte @sp_arte chega à sua 22ª edição entre os dias 8 e 12 de abril, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo. O evento reúne 180 expositores
Ver no InstagramDa Complete
Mais matérias de Rafael Silvério
Ver perfilÚltimas da Complete
CulturaMaja Petrić: a artista que escreveu a própria inteligência artificial
InovaçãoA luz virou material de construção
The Cover"Tenho mais medo de me entediar do que de explorar uma coisa nova"
ModaA moda e o vício da evaporação
DesignAnton Berkasov toca a própria arte como quem toca um instrumento
The CoverAugusto Paz: o designer de moda que começou a desenhar no Excel
BelezaBORNTOSTANDOUT chega ao Brasil









