SPFW N61 - Santa Resistência
Quando Shakespeare encontra o samba de Grande Otelo e a moda veste a memória
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Escrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza · 22 de outubro de 2026
Há histórias que atravessam séculos porque continuam capazes de revelar as contradições do seu próprio tempo. Outras permanecem vivas porque encontram novas vozes, territórios e formas de existir.
Em Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa, a Santa Resistência, sob direção criativa de Mônica Sampaio, aproxima esses dois movimentos ao estabelecer um diálogo entre Otelo, o Mouro de Veneza, tragédia escrita por William Shakespeare em 1603, e o musical brasileiro Otelo da Mangueira, idealizado e dirigido por Gustavo Gasparani. O que antes se desenrolava entre as estruturas de poder da Veneza shakespeariana é deslocado para o Morro da Mangueira da década de 1940, onde a narrativa encontra a cadência do samba e a memória de compositores fundamentais para a cultura brasileira, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Heitor dos Prazeres e Nelson Sargento.

Nesse encontro, a moda não aparece como uma tradução literal da literatura ou uma representação ilustrativa da música. Ela funciona como linguagem capaz de reorganizar sentidos, transformar personagens e aproximar universos que, embora distintos, compartilham questões sobre desejo, identidade, poder, preconceito e pertencimento. A paixão que conduz a coleção também é aquela que Mônica dedica à cultura do samba e às histórias que ela abriga, fazendo da passarela um território de atravessamentos. Na narrativa proposta pela estilista, Desdêmona deixa de ocupar o lugar de uma mulher condenada à tragédia para assumir uma postura altiva, autônoma e consciente de si. Otelo, por sua vez, não sucumbe ao ciúme, o chamado monstro dos olhos verdes, mas reconhece o valor da mulher que está ao seu lado. A transformação não apaga o conflito da obra original, mas propõe outra possibilidade para seus personagens. Em vez de reproduzir o desfecho trágico, a Santa Resistência imagina uma história em que o amor não precisa terminar em destruição e em que a mulher não é reduzida ao destino imposto pelo olhar masculino. A roupa passa, assim, a participar da construção de uma narrativa sobre paixão, autonomia e reinvenção, como se cada silhueta pudesse reescrever uma passagem conhecida. Shakespeare encontra o samba, o teatro encontra o corpo e a moda assume a responsabilidade de imaginar outros finais para histórias que continuam reverberando no presente.
O verde e rosa da Mangueira organiza visualmente essa narrativa, mas sua presença ultrapassa a função de uma cartela cromática. As cores atravessam jacquards, bordados, estampas e acessórios, conectando a atmosfera do período elisabetano às fantasias de luxo da escola de samba, tanto em sua memória histórica quanto em sua expressão contemporânea. Desenvolvido especialmente para a coleção pela RenauxView, parceira da marca pelo segundo ano consecutivo, o jacquard reúne diferentes referências temporais em uma mesma superfície, permitindo que o ornamento se torne ponto de encontro entre o vestuário de corte e a exuberância do Carnaval. Em outros momentos, trechos de sambas históricos da Mangueira aparecem bordados nas peças, fazendo com que a palavra e a música abandonem o espaço abstrato da composição sonora para integrar a materialidade da roupa.

O verde e rosa deixam de ser apenas as cores de uma escola de samba para se tornarem uma estrutura narrativa que percorre o desfile, conectando diferentes gerações e formas de criação. É nessa operação que a Santa Resistência encontra uma de suas possibilidades mais interessantes: fazer com que a referência cultural permaneça reconhecível sem se limitar à reprodução de um símbolo. A Mangueira não surge como cenário decorativo para uma coleção inspirada em Shakespeare, assim como a literatura não aparece como um adorno intelectual separado da experiência brasileira. Os dois universos são colocados em relação, e a moda se encarrega de construir a superfície onde suas diferenças podem conviver. O resultado é uma linguagem em que a memória não permanece imóvel, porque cada tecido, bordado ou imagem participa de uma interpretação renovada do que significa vestir uma história.
Um dos destaques é o look inteiramente bordado com pedrarias e miçangas, assinado pela estilista Cris Iglesias, cuja elaboração evidencia a relação entre tempo, matéria e construção visual. A parceria com Ueslei Freitas e Felipe Borges, do Ateliê Massanga, amplia essa pesquisa por meio de uma camisa e de um chapéu bucket confeccionados integralmente com miçangas de madeira, aproximando a passarela de práticas artesanais brasileiras que exigem conhecimento técnico e atenção minuciosa. Em colaboração com a Prefeitura de Maricá, o desfile incorpora ainda a tradicional tapeçaria Colaço e o ponto brasileiro, técnicas mantidas vivas pelas mãos da mestra artesã Dona Ilma, responsável por duas tapeçarias que serão transformadas em bolsas. Outras bolsas são feitas de taboa, fibra extraída de uma planta encontrada no fundo de lagoas e áreas alagadas de Maricá, em peças assinadas por Dona Benedita, artesã local de 80 anos.

Outra parceria continuada é a do Coletivo de Costureiras da Maré, responsável pela confecção de cerca de 70% das peças da coleção. Esse dado merece atenção porque evidencia a participação direta de um coletivo de trabalhadoras na materialização do projeto, deslocando o olhar da passarela para a rede de produção que a torna possível. A moda, nesse contexto, não se encerra na imagem de um look, mas envolve relações de trabalho, transmissão de conhecimento e colaboração entre diferentes agentes. A coleção também apresenta o couro pela primeira vez na passarela da marca, em parceria com Fernanda Bilhar, em duas propostas masculinas e uma feminina. Entre elas, destaca-se uma camisa rosa-claro com a imagem de Cartola estampada em verde nas costas, encontro que aproxima a materialidade do couro da memória musical que atravessa todo o desfile.
A força de Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa está, portanto, na maneira como a Santa Resistência articula linguagens sem reduzir suas diferenças a uma única imagem. A literatura oferece conflitos e personagens; o samba traz musicalidade, memória e pertencimento; o artesanato acrescenta técnicas e conhecimentos transmitidos entre gerações; a tecnologia abre caminhos para novas experiências com a forma e a matéria.

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