Egonlab e a coleção Lazarus: quando a pluma vira estrutura

Kévin Nompeix e Florentin Glémarec levaram a Paris uma coleção sobre recomeçar, e resolveram isso na costura antes de resolver no discurso.

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Caíque Nucci18 de agosto de 2026
Caíque Nucci

Escrito por Caíque Nucci

Fundador · 18 de agosto de 2026

Existe uma diferença entre vestir uma roupa de plumas e construir uma roupa com plumas. A primeira é acabamento, aplicado quando a peça já está pronta e serve para chamar atenção. A segunda é engenharia: a pena entra antes, decide o volume, levanta o ombro e define até onde o corpo termina. A coleção de inverno de 2026 da Egonlab, apresentada em Paris, é construída sobre a segunda ideia, e é isso que a separa de tudo que se parece com ela numa fotografia.

A dupla por trás da marca é francesa: Kévin Nompeix e Florentin Glémarec, que abriram a Egonlab em 2019 e viram a pandemia interromper o começo antes que ele virasse trajetória. Sete anos depois, a coleção que eles levaram à passarela chama-se Lazarus, e o nome não é figura de linguagem escolhida por soar bem.

O nome da coleção é uma declaração de método

O desfile abriu com um texto falado por Jameela Jamil, apresentado pela marca como um manifesto sobre resistência, renovação e recusa. Numa temporada em que quase toda casa fala de renascimento, a diferença da Egonlab é que a ideia aparece primeiro na construção da roupa e só depois no discurso. Lázaro volta com as marcas do que passou, não limpo. As peças fazem a mesma coisa: elas mostram a costura, o remendo e a assimetria em vez de esconder.

Corpo inteiro coberto por plumas azuis, incluindo a cabeça, sobre calça preta de alfaiataria, na passarela da Egonlab Alfaiataria de lã em tom escuro, com ombro largo e calça de cintura baixa, na passarela da Egonlab Peça de plumas vermelhas trabalhada em losangos sobre calça cargo de lã, na passarela da Egonlab
Três passagens do inverno 2026, da alfaiataria à pluma como segunda pele.

O preto que não é um preto só

A coleção é ancorada em preto, e a graça está em como ele se multiplica. Lã densa, jérsei fluido e jeans convivem na mesma passagem, e cada material devolve a cor de um jeito: a lã absorve, o jérsei escorrega, o jeans quebra. Há estampas que imitam tecido amassado, o que é um truque antigo de olho, o trompe l'oeil, usado aqui para uma finalidade específica. A roupa parece ter sido vivida antes de entrar na passarela.

É nesse fundo que a pena funciona. Numa coleção colorida ela seria mais um enfeite entre outros. Sobre o preto, ela é a única coisa que reflete luz, e por isso lê como estrutura: o vermelho trabalhado em losangos sobre o busto, o azul que sobe pelo pescoço e cobre a cabeça inteira, o verde escuro que arma a gola no lugar de uma armação de alfaiate.

A alfaiataria continua sendo a espinha

Quem olha só as fotos das plumas perde a parte que sustenta a coleção. A Egonlab construiu reputação em alfaiataria deslocada, e ela está toda ali: ombro alargado, cintura marcada por abotoamento lateral, jaqueta e saia dobradas uma sobre a outra para criar repetição visual, casa de botão em escala exagerada, gola crescida além do razoável, bolso com etiqueta de couro emprestado do vocabulário do jeans.

Nenhum desses recursos é decorativo. Cada um empurra a proporção do corpo para um lugar que a roupa masculina convencional não usa, e é essa distorção controlada, e não a pena, que faz a assinatura da casa.

Passagem de abertura da Egonlab no inverno 2026, com peça de plumas escuras sobre alfaiataria preta
Egonlab inverno 2026, desfile em Paris. Foto: Go Runway

As parcerias dizem para quem a marca fala

Duas colaborações saíram na mesma temporada, e as duas são coerentes com o resto. Com o Tinder, uma cápsula chamada Love Will Not Tear Us Apart, com camisetas híbridas, moletons desconstruídos, um anel em formato de coração e uma peça de alta-costura em plumas com xadrez, executada nos ateliês da Maison Février. Trinta por cento do lucro vai para a Safe Place, associação feminista em atividade desde 2018.

Com a Converse, um Chuck Taylor refeito por tecelagem manual aplicada sobre o tênis inteiro, ao ponto de mudar a silhueta dele. É o mesmo raciocínio da coleção: em vez de imprimir por cima de um produto pronto, refazer a superfície dele até virar outra coisa.

O que fica

A Egonlab está fazendo hoje, com pena e lã, o que outras áreas fazem com tecnologia: tratar o material como o assunto da obra, e não como a camada final aplicada depois que o trabalho já acabou. Numa temporada de casas grandes recomeçando com direção criativa nova, uma marca independente que sobreviveu ao próprio começo interrompido é a que aparece com o argumento mais construído.

É por isso que a coleção interessa a quem trabalha com moda no Brasil. Ela demonstra que uma casa pequena pode sustentar assinatura reconhecível sem orçamento de conglomerado, desde que a decisão técnica e a decisão estética sejam a mesma decisão. É uma lição de método antes de ser uma referência de estilo.

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