Luiz Claudio Silva e Carlos Penna Apresentam a Palco
Existem encontros que começam no trabalho, mas encontram no desejo de experimentar algo novo a possibilidade de construir uma linguagem própria
Escrito por
Escrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza · 12 de outubro de 2026
A aproximação entre Luiz Claudio Silva e Carlos Penna nasceu justamente desse lugar, quando o designer foi convidado a desenvolver os acessórios dos desfiles da Apartamento 03, marca comandada por Luiz. O que começou como uma colaboração profissional rapidamente se transformou em amizade, afinidade estética e vontade de criar em conjunto. Ao longo do processo, os dois reconheceram que suas experiências, embora distintas, poderiam encontrar um ponto de convergência capaz de provocar novas perguntas sobre a moda.

No início de 2025, a ideia de desenvolver uma marca do zero começou a ganhar contornos mais definidos, alimentada pela percepção de que ainda existe espaço para outras narrativas dentro de um segmento historicamente associado a códigos rígidos de vestimenta, silhuetas previsíveis e convenções de gênero. Mais do que somar repertórios, a dupla decidiu investigar o que poderia surgir quando a precisão da alfaiataria encontrasse a liberdade dos acessórios, quando a estrutura dialogasse com o movimento e quando o vestir deixasse de responder apenas às expectativas estabelecidas para se tornar um campo aberto de experimentação.
O resultado dessa aproximação foi apresentado na última quarta-feira, 30 de setembro, em um desfile-performance realizado na União Fraterna, em São Paulo. A estreia não se limitou à apresentação de uma coleção, mas propôs uma experiência cênica na qual roupa, corpo e encenação participaram da construção de um mesmo discurso. Afinal, quando dois criadores decidem compartilhar não apenas uma marca, mas também uma inquietação, o nascimento de uma etiqueta pode representar algo maior: a oportunidade de deslocar as fronteiras de um imaginário já conhecido.


Durante muito tempo, parte significativa do repertório masculino foi organizada em torno da contenção, da funcionalidade e da repetição de códigos que associam elegância à discrição e maturidade à ausência de excessos. Mesmo quando a moda contemporânea amplia suas possibilidades, determinados limites continuam operando na maneira como os corpos são vestidos, percebidos e autorizados a ocupar espaços. É nesse território que a parceria encontra sua potência: não necessariamente na recusa integral da tradição, mas na possibilidade de revisitar seus elementos, deslocá-los e descobrir outras relações entre forma, matéria e identidade.
alfaiataria, por exemplo, permanece como fundamento da coleção, mas deixa de funcionar exclusivamente como símbolo de formalidade. As construções amplas, os volumes generosos e os detalhes ornamentais abrem espaço para uma leitura menos disciplinada da roupa, na qual a estrutura não precisa significar rigidez e a elegância não depende da obediência a uma silhueta única. Há, nesse movimento, uma compreensão da moda como linguagem cultural: vestir-se é também negociar convenções, elaborar presenças e experimentar modos de existir. Ao reconhecerem a insuficiência de determinadas fórmulas, Luiz e Carlos não procuram simplesmente preencher uma categoria de mercado. A intenção parece estar em ampliar o vocabulário disponível, criando peças que preservam a familiaridade de elementos clássicos, mas alteram sua entonação. O resultado é uma investigação sobre masculinidades possíveis, na qual o desenho da roupa deixa de ser apenas uma questão de proporção e passa a participar de uma conversa mais ampla sobre liberdade estética, expressão individual e transformação dos códigos que definem o vestir.

A alfaiataria constitui a espinha dorsal dessa primeira coleção, sustentada pela experiência que Luiz acumulou ao longo de duas décadas à frente da Apartamento 03. Calças, blazers e trench coats aparecem em construções amplas, com volumes que se afastam da marcação convencional da cintura e privilegiam uma relação mais livre entre corpo e tecido. As modelagens quadradas não buscam necessariamente desenhar a anatomia, mas criar uma arquitetura vestível, na qual o espaço entre a roupa e o corpo também participa da composição. Babados introduzem movimento e suavizam a geometria de determinadas peças, enquanto o cetim acrescenta luminosidade e altera a maneira como as superfícies respondem à luz. O crochê, por sua vez, estabelece outra temporalidade material, aproximando o repertório da alfaiataria de uma construção que carrega textura, trabalho manual e delicadeza.
É justamente no encontro entre essas diferentes materialidades que a coleção revela uma de suas questões mais interessantes: a possibilidade de fazer conviver códigos que, em uma leitura mais convencional, poderiam parecer distantes. A precisão do corte não elimina a fluidez; a estrutura não impede a ornamentação; o acabamento não precisa apagar a dimensão sensorial da roupa. Os acessórios desenvolvidos por Carlos Penna ocupam um lugar decisivo nessa equação. Especialista em detalhes de prata, o designer incorpora prendedores de gravata e broches que deslocam objetos tradicionalmente associados à formalidade masculina para o território da composição autoral.

Em vez de funcionarem como complementos discretos, essas peças participam ativamente da construção dos looks, introduzindo pontos de atenção e novas possibilidades de combinação. A prata, com seu brilho frio, estabelece um diálogo particular com os tecidos, criando contrastes entre superfícies opacas e reflexivas. Mais do que adornar, os acessórios interferem na leitura da roupa, demonstrando como pequenos elementos podem reorganizar uma silhueta inteira. Nessa coleção, o detalhe não aparece como acabamento secundário, mas como parte de uma linguagem que compreende o vestir em camadas, relações e deslocamentos. A alfaiataria oferece a estrutura; os materiais produzem tensão; os acessórios introduzem novas inflexões. Juntos, esses elementos constroem uma narrativa visual que não depende de um único gesto para afirmar sua identidade.
Entre os elementos que mais chamam a atenção estão as peças de couro, o top confeccionado com argolas e os shorts com aberturas laterais. São propostas que introduzem uma sensualidade particular à coleção, menos interessada em oferecer uma provocação isolada do que em ampliar as possibilidades de exposição e construção do corpo. O couro acrescenta densidade e presença, enquanto as argolas transformam um elemento metálico em estrutura vestível, fazendo com que o acessório se aproxime da própria arquitetura da roupa. Já as aberturas laterais dos shorts alteram a relação entre cobertura e descoberta, introduzindo movimento e sugerindo que a sensualidade também pode nascer do corte, do espaço e da maneira como o corpo se revela durante o deslocamento. Esses detalhes são importantes porque ajudam a compreender a coleção para além de uma simples atualização da alfaiataria. Existe uma pesquisa sobre como os materiais podem produzir diferentes sensações e como a roupa pode sugerir outras relações com a pele, sem abandonar a elaboração formal.

A sensualidade, nesse contexto, não precisa ser confundida com excesso ou exibicionismo. Ela pode estar na construção de uma abertura, na textura de um tecido, no brilho de uma superfície ou na maneira como uma peça acompanha os movimentos de quem a veste. Ao mesmo tempo, a presença desses elementos revela uma disposição para questionar a fronteira entre o que costuma ser classificado como masculino e aquilo que, por convenção, foi associado à feminilidade.
A coleção parece operar justamente nesse intervalo, reconhecendo a força da alfaiataria sem tratá-la como um sistema fechado e incorporando o ornamento sem reduzi-lo a um recurso decorativo. A prata pode ser tão estrutural quanto o corte; o crochê pode dialogar com a precisão do blazer; o couro pode introduzir sensualidade sem anular a sobriedade da composição. A potência está na relação entre esses elementos, na maneira como cada escolha altera a percepção das demais. Para uma moda que deseja se renovar, talvez seja necessário olhar menos para a obrigação de produzir algo inteiramente inédito e mais para a capacidade de reorganizar aquilo que já existe, identificando outras possibilidades em materiais, técnicas e gestos conhecidos. O encontro entre Luiz e Carlos sugere que a criação também se constrói por aproximações: duas trajetórias que se reconhecem, duas especialidades que se complementam e um projeto que começa a encontrar sua própria voz.
Complete TV · Reels
A geografia sonora do Atlântico virou imagem e espaço.
Ver no InstagramDa Complete
Mais matérias de Sarah Rocksane Araujo
Ver perfilÚltimas da Complete
ModaFabiana Milazzo apresenta Passarim
CulturaThievery Corporation, 30 anos: a dupla de Washington que partiu da bossa nova
The Cover“O Brasil ainda valoriza pouco a moda autoral genuinamente brasileira”
InovaçãoA luz virou material de construção
DesignAnton Berkasov toca a própria arte como quem toca um instrumento
The Cover"Tenho mais medo de me entediar do que de explorar uma coisa nova"
BelezaBORNTOSTANDOUT chega ao Brasil









