Da pintura ao mobiliário, criadores brasileiros apresentados na SP-Arte 2026 usam água, raízes, luz e madeira como matéria-prima estética para o espaço doméstico contemporâneo.
Há um deslocamento em curso no design e na arte brasileiros que a SP-Arte 2026 tornou mais visível. Não se trata de uma tendência com nome e paleta definidos, mas de uma convergência silenciosa: artistas e designers de gerações e linguagens distintas chegaram, por caminhos diferentes, à mesma decisão de trabalhar com o orgânico como princípio formal. Água, raízes, frutos, madeira, luz filtrada deixaram de ser referência decorativa para estruturar os próprios objetos. O que entra na casa, agora, carrega a lógica da natureza tanto na forma quanto no processo.

Janaina Tschäpe constrói paisagens interiores a partir de azuis densos, fluidos dissolvido na tinta. Suas pinturas de grande formato estiveram no MoMA, no Musée de l'Orangerie e na Art Basel, e os trabalhos recentes, apresentados na Max Hetzler em Berlim e no Sean Kelly em Nova York, operam numa fronteira entre memória e estado emocional. A água, nos seus quadros, não é motivo: é atmosfera.

No mesmo território, mas com outro vocabulário, Janaina Mello Landini transforma cordas e fios em estruturas que replicam raízes, rios e ramificações. As Ciclotramas partem de um interesse genuinamente investigativo, tratando a natureza como sistema, não como imagem.

O que é pintura e instalação nessas duas artistas passa a ser objeto nas mãos de Adriana Yazbek e do estúdio Fahrer. Yazbek, arquiteta de formação, produz luminárias artesanais cujas formas vêm diretamente da flora brasileira: a pitanga, as flores, os frutos. Cada peça transita entre a função e a escultura, e o processo manual é parte constitutiva do resultado, não acabamento.

A Fahrer, conduzida por Sergio Fahrer, Jack Fahrer e Heloisa Samaia com mais de três décadas de trajetória, tem na madeira multilaminada curvada sua assinatura técnica. É uma maneira de dobrar o material sem quebrá-lo, extraindo das fibras uma forma que a madeira plana simplesmente não permitiria. Peças da marca integram acervos do MoMA e do Pavillon Le Corbusier.

A cadeira Pérolas, do designer Nicholas Oher, chegou à feira dentro da mostra "A Quarta Dimensão", organizada pela plataforma Boobam com treze estúdios brasileiros. A peça resume bem o que essa geração propõe: um objeto funcional que não abandona a investigação formal, encontrando na natureza um princípio construtivo, não apenas uma referência visual. Reunidos num mesmo contexto de feira, esses trabalhos sugerem algo além de afinidade temática. Há uma recusa compartilhada ao industrial como único parâmetro e uma aposta no tempo lento da matéria.
