Pina Bausch e a redefinição da dança como experiência teatral

Sua prática reunia movimento, texto, som e cenografia em peças que exploravam, de forma direta, comportamentos e experiências humanas.

Cultura // Art-time
por Caíque Nucci
Janeiro, 2026

Philippine “Pina” Bausch surgiu como uma voz singular na dança contemporânea a partir da década de 1970, quando assumiu a direção do Tanztheater Wuppertal na Alemanha e começou a articular um modo de criar que deixava para trás a separação tradicional entre dança e teatro.

Formada na Folkwang Hochschule em Essen e com passagem pela Juilliard School em Nova York, Bausch não se limitou à técnica ou à coreografia convencional. Sua prática reunia movimento, texto, som e cenografia em peças que exploravam, de forma direta, comportamentos e experiências humanas. Esse cruzamento de disciplinas acabou por dar nome à expressão Tanztheater, ou dança-teatro, um campo em que atores-bailarinos se engajam física e emocionalmente no palco, muitas vezes reinterpretando gestos e relações do cotidiano.

A trajetória de Bausch abre uma perspectiva distinta sobre a criação em cena. Em vez de construir narrativas lineares ou priorizar virtuosismo técnico, suas peças se organizavam como sequências de momentos que revelam tensões, contradições e repetições do comportamento humano. Figurinos, objetos e situações aparentemente prosaicas são deslocados para um contexto performativo que exige do público uma leitura ativa.

O repertório que Bausch levou ao longuíssimo período à frente de sua companhia — de Café Müller a montagens como Kontakthof e Vollmond — foi recebido internacionalmente não apenas como dança, mas como um modo de experiência teatral em que o corpo é instrumento e mensagem.

Mesmo após sua morte em 2009, sua influência persiste no modo como a dança contemporânea se constitui em diálogo com outras formas de expressão. A companhia que fundou continua a circular por palcos de várias geografias, e instituições como a Pina Bausch Foundation mantêm seu repertório em circulação e em diálogo com novas gerações de intérpretes e criadores.

O trabalho de Bausch não se restringe a um período histórico: ele reformulou a ideia de performance como encontro entre corpo, contexto e narrativa. Seus desdobramentos reverberam nas linguagens contemporâneas da arte, onde movimento e significado coexistem em uma mesma tessitura.

Ler mais