Em “Diálogos sobre o Tempo”, Ana Luisa Fernandes desloca essa inquietação para o campo do corpo, transformando a passarela em um espaço onde passado, presente e projeção convivem em fricção.
A ALUF abriu o segundo dia da Rio Fashion Week com uma pergunta que não se resolve, apenas se atravessa: como habitar o tempo sem ser engolida por ele? Em “Diálogos sobre o Tempo”, Ana Luisa Fernandes desloca essa inquietação para o campo do corpo, transformando a passarela em um espaço onde passado, presente e projeção convivem em fricção. Não se trata de responder, mas de desenhar possibilidades de existência. O que se vê, primeiro, é uma suspensão. Os looks em branco instauram uma pausa quase tátil, como se o tempo desacelerasse para que possamos observar melhor suas dobras. Há uma precisão silenciosa no design: golas altas estruturadas, tricôs sem manga que abraçam o corpo sem aprisioná-lo, calças amplas que escorrem com leveza. A silhueta não impõe: ela sugere. E nessa sugestão, a mulher ALUF se apresenta menos como figura idealizada e mais como processo em curso.

Mas é no detalhe que o discurso se adensa. As texturas, ora acolchoadas, ora levemente enrugadas, ora atravessadas por discretas ondulações, evocam a matéria do tempo. Há tecidos que lembram areia em movimento, outros que parecem já lapidados, quase perolados. As franjas surgem como marcação de passagem, um tic-tac materializado que acompanha o caminhar. Nada aqui é apenas ornamento; tudo opera como signo de duração, de transformação. A paleta reforça esse percurso. Do branco inicial ao bege e ao ocre, a coleção se ancora em uma escala terrosa, quase mineral, que sugere sedimentação. Em alguns momentos, o coral irrompe como pulsação. Já o preto aparece como eixo, organizando o olhar e introduzindo uma dimensão mais gráfica, especialmente quando dialoga com as listras de giz, reinterpretadas com leve irregularidade. É como se a marca revisse seus próprios códigos, permitindo pequenos desvios.

As silhuetas revelam um dos pontos mais interessantes da coleção: o embate entre controle e fluidez. De um lado, vestidos drapeados que acompanham o corpo em curvas contínuas, quase líquidas. De outro, estruturas que lembram a alfaiataria, cinturas marcadas, volumes nos quadris, coletes e sobreposições que organizam o torso. As chamadas “mulheres tic-tac” aparecem justamente nesse território híbrido: firmes, mas não rígidas; conscientes do tempo externo, mas ainda conectadas a um ritmo interno. Os acessórios literalizam e expandem o conceito. As bolsas circulares, com inscrições que remetem a números romanos, operam como pequenos relógios portáteis, enquanto as joias evocam mitologias do tempo, deslocando o discurso para uma dimensão simbólica. Há algo de ritual nesse conjunto, como se cada look fosse uma entidade, uma deusa contemporânea que negocia diariamente entre prazos, desejos e memória.

No fim, o que ALUF apresenta não é apenas uma coleção, mas um refinamento de linguagem. A estética lúdica que sempre atravessou a marca permanece, mas agora tensionada por uma consciência maior de mundo.