Thievery Corporation, 30 anos: a dupla de Washington que partiu da bossa nova
Rob Garza e Eric Hilton se conheceram num clube de Washington em 1995 e passaram três décadas juntando dub, bossa nova, cítara e discurso político. A turnê de aniversário termina em dezembro no palco onde tudo começou.
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Text von Caíque Nucci
Chefredakteur · 28. September 2026
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Toda coleção tem um disco que a gente puxa primeiro da estante. No caso da Thievery Corporation, esse disco é The Mirror Conspiracy, lançado em 2 de abril de 2000 pelos selos ESL e 4AD. A capa é um close em luz quente: o olho de um homem à direita, uma garrafa de vinho, um cinzeiro e, cortado na borda esquerda, o rosto de uma mulher. Por cima vêm o monograma com o M espelhado, a lista de faixas impressa na frente e até o código de barras, que ali entra no desenho. Design e fotografia são de Neal Ashby, com fotografia também de Bill Crandall. Em dezembro de 2022 o álbum voltou às lojas remasterizado, em LP duplo de 180 gramas com capa gatefold.
Nenhum outro disco da dupla vendeu tanto nos Estados Unidos: foram cerca de 224 mil cópias, segundo a Nielsen SoundScan. Dele saiu também "Lebanese Blonde", que foi single em 1998, entrou na trilha de Garden State em 2004 e hoje soma 121 milhões de execuções no Spotify, pelos dados do kworb de 8 de setembro. Vale abrir o álbum e seguir dali, página por página, para entender como dois produtores de Washington chegaram aos trinta anos de carreira sem nunca se prender a um som só.
Um depósito de bebidas na rua 18
A história começa num casarão de três andares na rua 18, logo ao sul do Dupont Circle, onde Theodore Roosevelt morou entre 1897 e 1898. Ali abriu, em 1995, a Eighteenth Street Lounge, que tinha Eric Hilton entre os donos. Naquele verão, Rob Garza passou pelo clube, os dois começaram a conversar sobre música e acharam um gosto em comum. Segundo a Encyclopedia.com, o que os uniu foi a bossa nova dos anos 1960. Eram dois rapazes de Washington, D.C., ouvindo discos brasileiros num bar da própria cidade.

O primeiro estúdio da dupla funcionava no depósito de bebidas do clube. Em 1996 veio o selo Eighteenth Street Lounge Music, a ESL, e com ele os primeiros discos de 12 polegadas, "Shaolin Satellite" e "2001: A Spliff Odyssey". No mesmo ano saiu na Alemanha o álbum de estreia, Sounds from the Thievery Hi-Fi, que só chegaria às lojas americanas em junho de 1997. A casa da rua 18 fechou em junho de 2020 e reabriu depois no bairro de Shaw. A dupla que nasceu lá dentro nunca parou.
Ladrões por ofício
O nome foi escolhido de brincadeira, conta Hilton. Os dois chegaram a mandar fazer cartões de crédito com "THIEVERY CORPORATION" gravado, como se fossem executivos de uma firma. A piada tem duas pontas. Uma zomba do mundo corporativo. A outra confessa o método, que é "roubar" pedaços de outros estilos por meio de samples. O jornal The Guardian os chamou de batedores de carteira sonoros, e eles nunca pareceram se incomodar.
O que se leva dessas carteiras vem de muitos lugares. Da Jamaica chegam o dub e o reggae, com o baixo grave e o eco. Da música clássica indiana vem a cítara; do Irã, o santur que Max Sadeghi toca em "Facing East". Há acid jazz, hip hop, eletrônica e música do Oriente Médio. "The Glass Bead Game" usa um trecho de "Samba Do Suenho", de Cal Tjader, e "Satyam Shivam Sundaram" põe um canto devocional em hindi sobre um sample dos Headhunters com as Pointer Sisters. Quando a revista Record Collector listou as referências centrais da dupla, em 2007, citou Antonio Carlos Jobim e Henry Mancini.
Essa colagem viajou longe. Pela contagem do kworb, a Thievery Corporation passa de 1,1 bilhão de execuções no Spotify. Na parada Dance/Electronic Albums da Billboard, The Cosmic Game (2005) e Radio Retaliation (2008) chegaram ao primeiro lugar, um logo depois do outro.
O fio que leva ao Brasil
Jobim aparece antes da primeira faixa: o disco de estreia é dedicado à memória dele. As capas dos primeiros trabalhos homenageiam João Gilberto, o álbum de 1973, e Stone Flower, do próprio Jobim. A bossa nova foi o que aproximou Garza e Hilton e ficou como um fio que atravessa a obra inteira.
Em The Mirror Conspiracy, Bebel Gilberto canta "Só com você" em português, sobre uma batida eletrônica lenta. Na mesma época surgiu "Air Batucada", e depois vieram títulos como "Meu Destino" e "Pela Janela". Em Radio Retaliation, Seu Jorge canta e toca violão em "Hare Krisna". A cantora Karina Zeviani está com o grupo desde 2005.
É ela quem abre caminho para Saudade, de 2014, um disco inteiro de bossa nova, jazz latino e lounge. São quatro faixas em português: "Meu Nêgo", "Quem Me Leva", "Nós Dois" e "Para Sempre". O álbum estreou em segundo lugar na parada Dance/Electronic da Billboard, vendeu 7 mil cópias na primeira semana, e Hilton já disse que é o seu preferido na discografia da dupla. Quem o escuta em São Paulo ou no Rio reconhece o sotaque de casa, filtrado por dois americanos que aprenderam a ouvir o Brasil pelos discos.
Oito línguas no mesmo catálogo
A Wikipedia conta oito línguas nas gravações: inglês, espanhol, francês, italiano, persa, português, romeno e hindi. A cada disco o elenco de vozes muda. LouLou Ghelichkhani, de família iraniana, nasceu em San Jose, na Califórnia, cresceu na França e canta em francês, persa e inglês; é dela a voz de "Omid", palavra persa para esperança. Pam Bricker, cantora de jazz de Washington que morreu em 2009, gravou "Lebanese Blonde". A islandesa Emilíana Torrini canta "Until the Morning". O nigeriano Femi Kuti leva o afrobeat para "Vampires", e Anoushka Shankar, que divide a vida entre Índia e Reino Unido, toca cítara em "Mandala".

A cidade natal também tem seu lugar. Chuck Brown, o pai do go-go de Washington, canta "The Numbers Game". Do Caribe vêm Puma Ptah, das Ilhas Virgens, que acompanha as turnês desde 2006, e a jamaicana Racquel Jones, descoberta durante as gravações em Port Antonio. Notch, de Hartford, com raízes porto-riquenhas, alterna inglês, espanhol e patois. Em The Cosmic Game, a lista de convidados chega a Perry Farrell, David Byrne e Wayne Coyne.
Em espanhol, uma das vozes recorrentes é a de Natalia Clavier, que canta "Claridad" em Saudade. A parceria saiu da banda: em 2023, Hilton gravou com ela o disco Corazón Kintsugi.

Uma capa indicada ao Grammy
O som é macio, mas a conversa nunca foi. Em setembro de 2005, a dupla participou do Operation Ceasefire, show contra a Guerra do Iraque. Radio Retaliation, de 2008, nasceu como disco político, e Garza o apresentou como uma declaração mais aberta das posições dos dois. Culture of Fear, de 2011, trata do medo como instrumento de governo. Em 2017, Hilton disse à PopMatters que a mensagem da dupla não se limita à política eleitoral e diz respeito a como o mundo está organizado.
A imagem acompanha o discurso. A capa de Radio Retaliation traz uma foto do Subcomandante Marcos, porta-voz zapatista do México, e foi indicada ao Grammy de melhor embalagem na 51ª edição do prêmio, entregue em 8 de fevereiro de 2009. Os diretores de arte indicados foram Neal Ashby, Matthew Curry e Patrick Donohue; o troféu foi para o Metallica. Ashby cuida da identidade visual da banda há mais de vinte anos, com uma estética retrô que conversa com as capas da Blue Note, com a bossa nova e com o cartaz político. Muita gente reconhece um disco deles na prateleira pelo desenho, antes de saber quem está por trás.
Dos festivais ao 9:30 Club
O palco sempre foi parte do trabalho. A banda tocou no Coachella em 1999, 2003 e 2009, e no Lollapalooza de Chicago em 2006. Em janeiro de 2009, abriu a turnê de Radio Retaliation com cinco noites seguidas e esgotadas no 9:30 Club, em Washington, segundo o Washington Post. Em 1º de agosto daquele ano, abriu o show de Paul McCartney no FedExField, em Maryland. No Colorado, o anfiteatro de Red Rocks recebeu a dupla pelo menos sete vezes desde 2010, incluindo a festa de vinte anos, em 13 de maio de 2016.

O Brasil viu a banda no TIM Festival de 2006, no Rio em 28 de outubro e em São Paulo no dia seguinte. Em 2012 ela voltou para o Lollapalooza Brasil, em 8 de abril, no Jockey Club de São Paulo, uma semana depois de tocar no Lollapalooza Chile. Em dezembro de 2017 passou pelo BUE Festival, em Buenos Aires.

Houve também a noite com orquestra. Em maio de 2017, a dupla se apresentou no Kennedy Center com 22 músicos, dentro da série KC Jukebox, de Mason Bates. A experiência deu origem a Symphonik, gravado com a FILMharmonic Orchestra de Praga e lançado em 2020. O setlist.fm registra 809 repertórios entre 1998 e 2026; "Lebanese Blonde" aparece em 301 deles.
Trinta anos depois
Não há disco inédito em 2026. Em 9 de setembro saiu Thievery 30, coletânea de 30 faixas pela Primary Wave Music, a mesma empresa que assinou a reedição em vinil de The Mirror Conspiracy em 2022. A turnê de aniversário segue pelos Estados Unidos. Neste sábado, 19 de setembro, a banda toca em Bend, no Oregon, com ingressos esgotados. Em dezembro, passa por Nashville, Atlanta, Asheville, Charlottesville e Richmond e fecha com três noites no 9:30 Club, em 19, 20 e 21 de dezembro. A própria banda anunciou que vai terminar a turnê onde tudo começou. Os ingressos estão à venda desde 18 de setembro.

Cada um também cuida do próprio caminho. Hilton montou um estúdio em Georgetown, lançou Midnight Ragas, seu oitavo disco solo, em junho de 2025, e A Sky So Close neste ano. Ao Washington City Paper, em julho de 2025, disse que prefere o estúdio e excursiona pouco, porque quem adora a estrada é o sócio. Neste ano, uma aparição dele no Terminal 5, em Nova York, foi descrita como rara. Garza mantém o projeto solo GARZA e comanda o selo Magnetic Moon Records.
Para o público brasileiro, a notícia é outra: não há data anunciada no Brasil nem na América Latina. Enquanto isso, o caminho de volta é o mesmo do começo desta visita. Tire The Mirror Conspiracy da estante, ponha "Só com você" para tocar e repare como a bossa nova que uniu dois rapazes num bar de Washington, há trinta anos, ainda está ali, no meio do dub.
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Foto de capa: Leonardo Samrani, BUE Festival, Buenos Aires, 15 de dezembro de 2017, CC BY 2.0.
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