O desfile se constrói como uma paisagem em movimento. Um Rio de Janeiro que não é apenas cenário, mas sistema de pensamento.
A Osklen retorna à passarela como quem nunca saiu, mas com o tempo inscrito na pele das roupas. Há um silêncio entre 2018 e agora que não é ausência, é maturação. Esse intervalo se manifesta naquilo que não precisa mais ser provado: uma linguagem consolidada que, ao invés de repetir fórmulas, se permite rarefazer. O gesto é mais contido, mas também mais preciso. Como se cada peça carregasse não apenas um desenho, mas uma memória de percurso.
Abrir o calendário no Palácio da Cidade não é só ocupar um espaço simbólico, é reivindicar uma origem. A marca reinscreve sua própria narrativa como fundadora de um imaginário carioca que articula natureza e urbano sem torná-los opostos. Há uma inteligência nesse reposicionamento: enquanto o sistema da moda acelera, a Osklen desacelera e reapresenta seu tempo como estratégia. O luxo aqui não se ancora no espetáculo, mas na coerência de um projeto que atravessa décadas. Os primeiros looks instauram uma atmosfera quase suspensa. Brancos translúcidos, tecidos que parecem evaporar ao caminhar, volumes que não pesam. Há uma relação sensorial com o ar, com o movimento, como se o corpo fosse menos suporte e mais fluxo. Em contraponto, o preto aparece como estrutura — não apenas cor, mas desenho. Uma linha que organiza o olhar, evocando o paisagismo de Burle Marx sem cair na literalidade. É uma citação que se dissolve na construção da coleção.

A cartela então se expande, e o que era contenção se torna vibração. O bege da areia cria uma zona de transição, um território de pausa, até que surgem as manchas líquidas( azuis profundos, verdes saturados, vermelhos) que atravessam o tecido como pigmento em água. Há algo de digital nessas superfícies, mas também algo profundamente orgânico. Como se o calçadão de Ipanema fosse reprogramado por uma lógica sensível, onde cor e matéria se contaminam mutuamente. As silhuetas operam nesse mesmo jogo de tensões. De um lado, o fluido: vestidos que deslizam, proporções que escapam da rigidez. De outro, o técnico, peças esportivas que desenham o corpo com precisão. O long john surge como ponto de inflexão: um objeto funcional deslocado para o campo do desejo, coberto por pedrarias que evocam festa, noite e celebração. É nesse deslocamento que a Osklen reafirma sua capacidade de reconfigurar códigos, de fazer do utilitário um gesto estético.
Os materiais, como sempre, são centrais. Linho, seda, ráfia, juta, uma materialidade que insiste no tátil, no contato. O couro de pirarucu, já desenvolvido pela marca há anos, aparece não como novidade, mas como continuidade de uma pesquisa que articula sustentabilidade e sofisticação. Há uma ética que atravessa o design, mas que nunca se torna discurso vazio: ela se materializa na escolha, no acabamento, na duração possível dessas peças. A sensualidade carioca, por sua vez, não é caricatura: é construção. Transparências, recortes, biquínis mínimos não operam apenas como exposição do corpo, mas como afirmação de uma relação específica com ele: livre, solar, consciente de si. O styling reforça essa ideia ao misturar sandálias, tênis, acessórios híbridos, como se a praia e a cidade fossem um mesmo território expandido.

No fim, o desfile se constrói como uma paisagem em movimento. Um Rio de Janeiro que não é apenas cenário, mas sistema de pensamento. E talvez seja justamente aí que reside a força da Osklen: na capacidade de transformar lugar em linguagem, e linguagem em permanência.