Klára Hosnedlová apresenta “Echo” na White Cube com instalação imersiva sobre tempo, arquitetura e matéria viva

Exposição na White Cube, em Londres, transforma bordado, escultura e performance em um ambiente arqueológico do futuro

Cultura // Art-time
por Caíque Nucci
Fevereiro, 2026

Entre estruturas metálicas, tapeçarias monumentais e formas orgânicas em crescimento, a artista tcheca Klára Hosnedlová constrói em “Echo”, sua exposição na White Cube Bermondsey, um ambiente total que investiga o tempo como matéria plástica.

Nascida em 1990, parte da primeira geração pós-comunista da República Tcheca, Hosnedlová desenvolve uma prática que articula arquitetura, escultura, bordado e performance em instalações site-specific. Seu trabalho parte de uma pesquisa sobre utopias modernas da Europa Central e suas reverberações contemporâneas, combinando referências ao brutalismo, à ficção científica e às tradições artesanais da região.

Em “Echo”, em cartaz até 29 de março de 2026, o espaço expositivo é convertido em uma espécie de escavação arqueológica do futuro. Estruturas industriais e plataformas metálicas são ocupadas por relevos em arenito, bordados hiper-realistas e massas orgânicas cultivadas com micélio e fungos reishi. A paisagem sugere um cenário pós-natural, onde vestígios humanos coexistem com processos biológicos em curso.

No centro da prática de Hosnedlová está o bordado manual, desenvolvido a partir de fotografias produzidas pela própria artista. Antes de cada exposição, ela encena performances privadas dentro das estruturas que constrói. Esses registros se tornam base para painéis bordados com fio de seda ou algodão, executados ao longo de meses.

As imagens resultantes mostram fragmentos de corpos e gestos suspensos no tempo: mãos segurando um fósforo aceso, dedos marcando superfícies com carvão, bocas adornadas com joias dentárias. O gesto, frequentemente associado a tecnologias primárias como o fogo ou o desenho, aparece como instrumento de memória e transmissão.

O bordado, tradicionalmente associado ao campo do artesanal e do doméstico, é deslocado para uma escala monumental e inserido em uma cenografia arquitetônica. Ao fazer isso, Hosnedlová tensiona as fronteiras entre arte, craft e construção espacial, tratando o fio como um meio de inscrição histórica.

Formada na Academy of Fine Arts de Praga, a artista desenvolveu uma pesquisa consistente sobre arquitetura modernista e brutalista da Europa Central. Em sua obra, edifícios são entendidos como futuros vestígios arqueológicos — estruturas que carregarão, para gerações futuras, marcas de ideologias e desejos coletivos.

Em “Echo”, essa lógica se materializa em plataformas elevadas, paredes metálicas e esculturas com aparência fossilizada. Elementos industriais são combinados a fibras naturais, pedra e resina mineralizada. O contraste entre aço e matéria orgânica reforça a sensação de um mundo em transição, onde passado industrial e crescimento biológico se entrelaçam.

O espaço expositivo deixa de ser um contêiner neutro e passa a operar como um organismo. Fragmentos de figurinos abandonados, folhas espalhadas e marcas nas superfícies sugerem a passagem recente de corpos. A presença humana é insinuada, nunca central.

A noção de “eco” funciona como princípio estrutural da exposição. Elementos de projetos anteriores reaparecem reconfigurados, criando continuidade entre mostras distintas. Ideias não são repetidas, mas transformadas.

Ao incorporar fungos vivos e processos de crescimento biológico, Hosnedlová introduz o tempo como agente ativo. A obra não é estática: ela se altera, amadurece e reage ao ambiente. O som, desenvolvido como parte da instalação, amplia essa dimensão, adicionando camadas temporais ao espaço físico.

Em vez de propor uma narrativa linear, “Echo” sugere que o tempo pode ser comprimido, acumulado e reativado. O passado artesanal, o modernismo utópico e um imaginário pós-humano coexistem no mesmo plano.

Com exposições recentes em instituições como Kunsthalle Basel e Hamburger Bahnhof, Hosnedlová consolida uma prática que trata a instalação como ambiente total. Cada projeto é concebido como um sistema fechado, onde escultura, imagem e performance operam de forma interdependente.

Em “Echo”, a artista não apresenta objetos isolados, mas um território. A instalação funciona como um campo de tensão entre matéria industrial e matéria viva, entre memória histórica e projeção especulativa.

O resultado não é uma visão distópica nem celebratória do futuro. É um espaço suspenso, onde o visitante caminha por uma paisagem que parece simultaneamente ancestral e por vir.

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