El Barco de Grada Kilomba: donde la memoria navega en el presente
La obra no busca monumentalizar el pasado, sino exponer su entraña. En lugar de elevarse al cielo como un hito imperial, desciende al nivel del suelo, revelando el lado oculto de las narrativas coloniales.
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Caíque NucciEscrito por Caíque Nucci
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En la Galería Galpão del Inhotim, reposa una embarcación hecha de recuerdos. Extendida por 32 metros, O Barco (2021), de la artista luso-guineense Grada Kilomba, emerge del suelo como una cicatriz silenciosa, esculpida en 134 bloques de madera quemada. La instalación evoca el vientre de las embarcaciones que cruzaron el Atlántico llevando millones de cuerpos africanos esclavizados, traduciendo en materia una historia de violencia, silenciamiento y resistencia.
Cada bloque de madera lleva marcas singulares, quemaduras y texturas que recuerdan a la piel y la memoria. En el recorrido entre las piezas, un poema grabado en oro se despliega en seis idiomas: Yorubá, Crioulo de Cabo Verde, Kimbundu, Portugués, Inglés y Árabe; conduciendo al visitante por una travesía sensorial e histórica. La instalación invita a recorrer este espacio como quien camina sobre archivos no escritos, vestigios de vidas transformadas en números y ahora restituidas a la condición humana.

A obra não busca monumentalizar o passado, mas expor o seu ventre. Em vez de elevar-se ao céu como um marco imperial, desce ao nível do chão, revelando o lado oculto das narrativas coloniais. A horizontalidade da instalação contrasta com a verticalidade das estruturas tradicionais de poder, transformando o espaço em território de contemplação e escuta.
O Barco ultrapassa a dimensão escultórica. Ao longo de sua exibição no Inhotim, três atos performáticos reativam o espaço com música, dança e corpo. No primeiro ato, o Ensemble Lisboa ocupou a galeria com vozes e percussões que ressoaram como cânticos memoriais. Nos atos seguintes, artistas da própria região compõem um ensemble local, criando um elo direto entre território, comunidade e memória viva.

Apresentada anteriormente em Lisboa, Barcelona e Londres, a obra encontra no Inhotim um novo solo simbólico. Entre árvores, luz natural e o silêncio da paisagem mineira, o que antes foi instrumento de opressão transforma-se em altar de lembrança e afirmação. O Barco cria um espaço de ritual e reflexão, onde passado, presente e futuro se entrelaçam.

Ao atravessar essa instalação, o visitante não contempla apenas uma obra, mas um território de memória coletiva. A peça de Grada Kilomba reafirma a arte como instrumento de reescrita histórica e espaço de cura, abrindo brechas no tempo para que histórias silenciadas possam ser contadas de novo, desta vez, com dignidade.
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