A moda e o vício da evaporação
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Escrito por Rafael Silvério
Moda · 20 de agosto de 2026
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Essa semana fui a um lançamento de livro e, conversando com outros operários da moda, me dei conta do quanto estamos atravessados pela impermanência crônica desta indústria. Entre um relato e outro, uma das integrantes — mais de vinte anos de carreira — confessou que ainda se surpreende com a velocidade das mudanças, com a forma como absolutamente tudo, de uma crise cambial a uma tragédia do outro lado do mundo, encontra caminho até a passarela. Não é ingenuidade sua: é o sintoma mais honesto de um mercado que nunca aprendeu — ou nunca quis aprender — a se firmar.
A palavra volatilidade vem do latim volatilis, "que voa", "instável". O conceito moderno de medir a oscilação de preços nos mercados financeiros foi introduzido pelo matemático francês Louis Bachelier, em sua tese de 1900,
Théorie de la Spéculation, onde ele cunhou expressões como "coeficiente de instabilidade" para descrever matematicamente algo que até então era tratado apenas como intuição de especulador. Por definição, a volatilidade mede a frequência e a intensidade com que o preço de um ativo — ou o valor de qualquer grandeza — oscila em determinado período. Indica grau de variação e incerteza: no mercado financeiro, quantifica risco; na física e na química, descreve a facilidade com que uma substância evapora.
É desse duplo sentido — risco e evaporação — que a moda se apropria, quase sempre sem admitir. Volatilidade financeira vira álibi para volatilidade política: a mesma lógica que justifica vender mais de uma coleção por semana também autoriza esvaziar pautas inteiras assim que elas deixam de ser rentáveis. A diversidade é o exemplo mais recente e mais cínico — e agora já existe número suficiente para provar isso, não só sentir.
O assassinato de George Floyd, em 25 de maio de 2020, em Minneapolis, quando o policial Derek Chauvin manteve o joelho sobre seu pescoço por mais de nove minutos, gerou repercussão internacional e alimentou o maior ciclo de mobilização do Black Lives Matter em décadas. Em resposta, empresas de moda fizeram compromissos públicos com a comunidade negra que iam além de vagas afirmativas: prometiam capacitação, planos de carreira e — o ponto mais frágil de todos — presença negra real nas mesas de decisão executiva. Malcolm X já havia nomeado o problema estrutural por trás dessa intermitência: "Como americanos, não abriremos mão de nenhum direito garantido pela Constituição. A história da violência impune contra o nosso povo mostra claramente que precisamos estar preparados para nos defender, ou continuaremos indefesos, à mercê da crueldade dos grupos racistas." A frase, escrita décadas antes de qualquer diversity report corporativo, antecipa exatamente o que vimos: direitos e representatividade tratados como concessão revogável, não como conquista. O sistema racista não desapareceu sob a pressão de 2020 — apenas se sofisticou, blindou-se e esperou a próxima janela de retração. Essa janela chegou com o segundo mandato de Donald Trump, iniciado em 20 de janeiro de 2025, cujas ordens executivas contra políticas de DEI aceleraram um movimento que, em parte, já vinha se desenhando desde a decisão da Suprema Corte americana que baniu ações afirmativas no ensino superior, em 2023. O resultado, em menos de um ano, foi um desfile de recuos: a Meta encerrou seus programas de diversidade citando mudanças no "cenário legal e político"; o Goldman Sachs removeu a seção sobre diversidade e inclusão de seu relatório anual; a Paramount extinguiu metas de contratação diversa; o Bank of America substituiu a palavra "diversidade" por "talento" e "oportunidade" em seus documentos; a Disney rebatizou sua métrica interna de "Diversidade & Inclusão" para "Estratégia de Talento". A Target foi além: encerrou não só suas metas trienais de DEI, mas também o Racial Equity Action and Change, programa de cinco anos voltado ao desenvolvimento de carreira de funcionários negros — cujo fim, segundo a própria empresa, "já estava planejado para 2025". Planejado. A palavra é reveladora: o compromisso tinha prazo de validade desde o início, só esperava um clima político que tornasse a saída publicamente aceitável. A ironia é que os números nunca pediram esse recuo.
Um levantamento da McKinsey de 2023 já mostrava que empresas com lideranças mais diversas tinham 39% mais chances de superar financeiramente seus concorrentes. O recuo não é resposta a dado nenhum — é resposta a pressão política, e a moda, historicamente, é o setor mais rápido a se realinhar com qualquer pressão, seja ela estética, financeira ou ideológica.
No Brasil, o gesto é mais discreto, mas o fosso que ele revela é maior. O relatório de transparência da Fashion Revolution Brasil, divulgado em novembro de 2024, mediu exatamente a distância entre vitrine e estrutura: mulheres negras ocupam 54% das vagas de entrada no setor — trainee, estágio, base da cadeia — mas apenas 2% dos cargos de alta liderança. Homens brancos ocupam 77% desses cargos; mulheres brancas, 17%; homens negros, 4%. Isso num país onde 56,1% da população se autodeclara preta ou parda, segundo o IBGE (2022). A cota racial da SPFW — instituída em 2020, obrigando 50% de modelos negros, afrodescendentes ou indígenas nos desfiles, sob pena de banimento de edições futuras — segue formalmente em vigor até a edição comemorativa de 30 anos, em 2025. A passarela, portanto, cumpre a cota. A sala de reunião, não. E é exatamente esse descompasso que permite à indústria nacional sobreviver ao mesmo ciclo de esvaziamento visto lá fora sem precisar admitir publicamente nenhum recuo: quando a diversidade já é, desde sempre, mais vitrine do que governança, não há programa para cancelar — só um casting para, aos poucos, voltar a encolher.
Em paralelo, e não por acaso, a resposta da indústria aos corpos diversos veio pela via farmacológica. Segundo a consultoria Circana, cerca de 23% dos domicílios americanos já usavam medicamentos GLP-1 até setembro de 2025 — quatro pontos percentuais a mais que no ano anterior — e 80% desses usuários já esperam precisar de roupas novas por mudança de tamanho. O mercado respondeu na mesma velocidade: dados da Impact Analytics mostram que, entre 2022 e 2024, a fatia de blusas femininas em tamanhos PP e P subiu de 35% para 37%, enquanto tamanhos G e acima caíram de 33% para 31%. Redes especializadas em plus size sentiram o golpe: a Torrid registrou queda de 14,3% nas vendas no último trimestre fiscal de 2025 e planeja fechar 30 lojas; a DXL teve retração de 6% no mesmo período. No Brasil, reportagens recentes já registram a mesma tendência nas passarelas: menos modelos "curvilíneas" desfilando, num recuo que agências internacionais atribuem diretamente à normalização do emagrecimento por medicamento. Vale registrar a ressalva que a própria imprensa especializada faz: não há prova direta de que o Ozempic esteja mudando o corpo do consumidor em massa — mas a indústria encontrou nele uma desculpa conveniente para se afastar de algo que sempre lhe custou mais caro produzir: tecido extra, modelagem cuidadosa, provas múltiplas.
A gordofobia não precisou de medicamento nenhum para existir; só esperava um álibi mais barato que discurso de inclusão.
Esses dois vetores — o recuo político sobre raça, documentado em relatórios corporativos e de transparência, e o retorno da magreza como padrão inegociável, documentado em planilha de estoque — não são coincidências paralelas: são a mesma volatilidade operando em duas frentes, cada uma com sua própria métrica de evaporação. O mercado que antes erguia marcas e discursos essenciais para o debate da produção cultural brasileira agora devolve espaço a pautas que se esvaziam antes de amadurecer, porque nunca foram tratadas como estrutura — foram tratadas como tendência, com prazo de validade tão previsível quanto o de uma coleção. E tendência, por definição, evapora
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A instalação interativa Canvas, desenvolvida pelo artista húngaro Gaspar Battha @gasparbattha e exibida no Zsolnay Light Festival @fenyfeszt
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