RioFW 2026 — Handred

A Handred ocupou a passarela da Rio Fashion Week com Akáshica, uma investigação profunda onde André Namitala desloca a roupa de sua funcionalidade imediata para transformá-la em um arquivo vivo de memórias universais.

Sarah Rocksane Araujo

Escrito por Sarah Rocksane Araujo

Redação, Moda e Beleza

O desfile, orquestrado pela dramaticidade da Companhia de Ópera da Lapa, instaurou uma atmosfera de ópera brasileira que tenciona luz e sombra em um diálogo direto com a estética barroca. O que se viu não foi uma representação mística superficial, mas a tradução de registros íntimos, acessados por meditação, em uma linguagem material precisa e densa. Há uma inteligência nesse projeto que utiliza o tempo como um elemento ativo na construção das peças, revelando camadas de sentido que ultrapassam o gesto estético para se tornarem um ato de reconhecimento identitário.

O rigor do design manifesta-se em silhuetas que equilibram excesso e contenção, onde estruturas complexas em couro com bordados em matelassé convivem com a fluidez de vestidos em crepe. O projeto gráfico da coleção, desenvolvido por Camila Levy, apresenta desenhos granulados e corroídos que remontam a afrescos e tetos lúdicos, reinterpretando abóbadas e cúpulas em intervenções manuais sobre o tecido.

Fotos: @agfotosite
Fotos: @agfotosite

Há uma sofisticação técnica no uso de shantungs que misturam plissados, pespontos e bordados, criando superfícies que parecem envelhecidas pelo tempo. Essa tridimensionalidade é reforçada por acessórios escultóricos, como as cerâmicas pintadas à mão em parceria com o ateliê SSSopro e os brincos de Julia Levenstein, que ancoram o imaginário onírico da marca na matéria bruta. A paleta de cores percorre um caminho de densidade e introspecção, fundamentada em marrons profundos, verdes e preto, pontuados por toques de rosa e cobre.

Fotos: @agfotosite
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Essas tonalidades organizam a narrativa de uma coleção que se recusa a ser efêmera, apostando em cores que evocam a sedimentação do tempo e a solidez dos materiais. A cor aqui funciona como suporte para símbolos místicos e elementos de diferentes matrizes culturais que se entrelaçam no campo manual da Handred. O contraste cromático, aliado ao uso de tafetás, gazares e veludos, cria um jogo visual onde o brilho e a opacidade operam em fricção constante, reforçando o caráter dramático e sinuoso da apresentação.

Fotos: @agfotosite
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Fotos: @agfotosite
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A materialidade é o eixo central que garante a continuidade da pesquisa de André Namitala, unindo lã, seda e algodão em um repertório têxtil de extrema sofisticação. O trabalho artesanal, evidenciado nos bordados do Atelier Simone Brum e no macramê da Casa Ponte, demonstra uma valorização do saber manual que é intrínseco ao DNA da etiqueta. A roupa deixa de ser apenas cobertura para se tornar uma construção de sentido, onde o mistério habita os planos internos a serem revelados por quem veste. Cada peça carrega consigo a herança de um ateliê numeroso e dedicado, cujas mãos materializam a complexidade de um pensamento que vê na moda uma forma de acessar camadas invisíveis da constituição humana

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