Complete Looking — A Fotografia de Chris Steele-Perkins
Chris Steele-Perkins pertence a uma linhagem de fotógrafos que compreenderam a imagem não como simples registro documental, mas como uma tecnologia sensível de escuta social, uma forma de interpretar as tensões invisíveis que organizam os corpos, os territórios e os afetos dentro da modernidade.
Escrito por
Sarah Rocksane AraujoEscrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza
Sua trajetória, iniciada entre a Birmânia e a Inglaterra do pós-guerra, atravessa algumas das principais transformações culturais e políticas do século XX, mas o que torna sua obra particularmente singular não é apenas a dimensão histórica dos acontecimentos que fotografou, e sim a maneira como ele deslocou o fotojornalismo de uma lógica puramente factual para um campo profundamente humano, subjetivo e antropológico.
Ao longo de décadas, Steele-Perkins construiu um arquivo visual que investiga identidade, classe, violência estrutural, pertencimento, juventude, memória e deslocamento, sempre recusando a neutralidade estética que tradicionalmente marcou parte do documentarismo ocidental.
Formação, consciência social e o documentário como posicionamento político
Nascido em 1947, em Rangoon, atual Myanmar, filho de pai inglês e mãe birmanesa, Steele-Perkins cresceu em uma Inglaterra ainda profundamente marcada pelos efeitos psicológicos da guerra e pelas transformações sociais da reconstrução europeia. Ainda jovem, estudou Psicologia na Universidade de Newcastle upon Tyne. Antes mesmo de se tornar fotógrafo, já existia nele um interesse evidente pelos mecanismos de comportamento coletivo, pelas formas de sobrevivência emocional e pelas estruturas invisíveis da vida cotidiana. Foi durante o trabalho no jornal universitário que entrou em contato com ensaios documentais publicados no The Sunday Times, especialmente os de Don McCullin, experiência decisiva para sua aproximação com o fotojornalismo.

Nos anos 1970, vivendo em Londres, Steele-Perkins voltou seu olhar para as transformações urbanas da Inglaterra em crise econômica. Era um período de desemprego crescente, tensões raciais, colapso industrial e endurecimento das políticas públicas britânicas. Enquanto parte da fotografia internacional direcionava sua atenção para conflitos armados ou exotizações geográficas, Steele-Perkins escolheu investigar a precariedade doméstica inglesa, os bairros periféricos, os trabalhadores invisíveis e os jovens deslocados dentro da própria estrutura britânica. Sua entrada para o Exit Photography Group, em 1975, consolidou essa dimensão política de sua produção. Ao lado de Nicholas Battye e Paul Trevor, percorreu cidades industriais como Glasgow e Middlesbrough documentando a pobreza urbana em meio à transição econômica inglesa. O resultado desse trabalho seria o livro Survival Programmes, publicação que hoje pode ser entendida como um dos documentos visuais mais importantes sobre a violência estrutural do neoliberalismo emergente na Grã-Bretanha.

O que diferencia Survival Programmes de muitos registros sociológicos da época é justamente sua capacidade de recusar o miserabilismo visual. Steele-Perkins não fotografa comunidades pobres como corpos passivos da decadência econômica. Ao contrário, suas imagens enfatizam convivência, humor, intimidade, resistência cotidiana e estratégias de sobrevivência. Essa preocupação com a dignidade das comunidades marginalizadas aparece de maneira ainda mais intensa em seu trabalho na Irlanda do Norte. Durante os conflitos conhecidos como The Troubles, Steele-Perkins fotografou comunidades católicas em Belfast a partir de uma perspectiva declaradamente antiopressiva. Em vez de construir imagens espetaculares da guerra urbana, buscou retratar os efeitos da militarização sobre a vida cotidiana, os funerais, os encontros familiares, as brincadeiras infantis, os momentos de lazer e a persistência da vida comunitária em meio à ocupação. Steele-Perkins afirmava não ter interesse em neutralidade. Seu compromisso estava com os sujeitos historicamente oprimidos. Essa posição desloca completamente sua prática fotográfica de uma tradição jornalística liberal baseada na ideia de imparcialidade. Para ele, a fotografia documental era inevitavelmente política porque a escolha do enquadramento já implicava uma tomada de posição ética.

Essa dimensão política se intensifica em seus trabalhos sobre movimentos racistas e manifestações antirracistas na Inglaterra do final dos anos 1970 e início dos anos 1980. O crescimento da National Front e o endurecimento do discurso anti-imigração britânico aparecem em suas imagens não como abstrações ideológicas, mas como forças concretas que reorganizavam o cotidiano de comunidades racializadas. Steele-Perkins registrou protestos, tensões urbanas e a experiência de minorias étnicas em um momento decisivo da história britânica. Ao mesmo tempo, desenvolvia um dos projetos mais emblemáticos de sua carreira, The Teds, ensaio realizado ao longo de três anos sobre os Teddy Boys, subcultura britânica originalmente surgida nos anos 1950 e revivida na década de 1970. O projeto ultrapassa completamente a fotografia de moda ou o registro superficial de tribos urbanas. Embora as roupas sejam elementos visuais centrais, Steele-Perkins compreendia o vestuário como dispositivo de identidade social.
As imagens de The Teds possuem enorme relevância para os estudos contemporâneos de moda justamente porque revelam a roupa como linguagem de pertencimento, resistência e construção subjetiva. Os ternos drapeados, os penteados exagerados, os sapatos brilhantes e as poses performáticas aparecem menos como tendência estética e mais como arquitetura simbólica de existência coletiva. Steele-Perkins entendia que estilo nunca é apenas aparência. Estilo é território psicológico.
Da Magnum ao mundo: novos territórios, mesma ética do olhar

Em 1979, o fotógrafo ingressa na Magnum Photos, marco decisivo em sua trajetória internacional. A partir daí, amplia seu campo geográfico de atuação e passa a desenvolver projetos em diferentes partes do mundo, especialmente na África e na Ásia. Ainda assim, mesmo com a expansão territorial, sua abordagem permanece consistente. Steele-Perkins continua interessado menos no exotismo geográfico e mais nas estruturas humanas da experiência cotidiana.
Seu trabalho na África ao longo das décadas de 1980 e 1990 evita muitos dos vícios históricos do fotojornalismo ocidental sobre o continente. Em vez de transformar populações africanas em imagens genéricas de sofrimento ou miséria, Steele-Perkins constrói fotografias densas, contraditórias e profundamente relacionais. Há violência, mas há também afeto, desejo, humor, moda, ornamentação e subjetividade. Essa sensibilidade ganha novos contornos em The Pleasure Principle, projeto sobre os lazeres britânicos durante a era Thatcher. O livro marca uma mudança importante em sua produção, especialmente pela incorporação mais intensa da fotografia colorida. Steele-Perkins percebe que a Inglaterra dos anos 1980 se tornava cada vez mais performática, estranha e teatral. A cor passa então a funcionar como instrumento crítico capaz de revelar os excessos visuais da sociedade de consumo. Sua passagem para a fotografia colorida também evidencia uma compreensão sofisticada da imagem como construção emocional. Para Steele-Perkins, a cor nunca foi mero recurso decorativo. Ela funcionava como densidade psicológica. Tons saturados, contrastes abruptos e atmosferas luminosas transformavam situações comuns em experiências visualmente inquietantes.
Mesmo durante esse período de experimentação cromática, o fotógrafo manteve projetos em preto e branco, como sua extensa documentação do Afeganistão entre 1994 e 1998. O livro Afghanistan é talvez uma de suas obras mais emocionalmente intensas. Suas imagens não romantizam o conflito, mas também não reduzem o país à lógica da devastação permanente. Há uma dimensão profundamente existencial em suas fotografias afegãs. Steele-Perkins descrevia o Afeganistão como um lugar simultaneamente belo, trágico, heroico e brutal. Essa multiplicidade emocional aparece diretamente na construção visual do projeto. Suas imagens revelam ruínas, mas também delicadezas. Mostram violência, mas também contemplação. O fotógrafo parecia compreender que nenhum território humano pode ser reduzido a uma narrativa única.
Posteriormente, sua relação com o Japão inaugura uma nova camada em sua obra. Após casar-se com Miyako Yamada, Steele-Perkins inicia um longo processo de investigação visual sobre a cultura japonesa. Diferentemente de muitos fotógrafos estrangeiros que abordam o Japão através do exotismo tecnológico ou da hiperurbanização, ele constrói um olhar íntimo, afetivo e silencioso sobre o país. Fuji, publicado em 2000, revela essa dimensão contemplativa. O fotógrafo parece menos interessado em explicar o Japão e mais em experienciar suas atmosferas emocionais. Suas imagens tornam-se mais pausadas, melancólicas e meditativas. O tempo desacelera. O ruído urbano dá lugar à observação da memória, da paisagem e das pequenas intimidades. Essa dimensão diarística se aprofunda em Echoes, livro extremamente pessoal sobre o ano de 2001. Aqui, Steele-Perkins transforma a fotografia em mecanismo de preservação da experiência íntima. O cotidiano deixa de ser apenas matéria documental e passa a operar como arquivo emocional da passagem do tempo.
Ao longo das décadas seguintes, o fotógrafo continuaria investigando Inglaterra, Japão, envelhecimento, migração e pertencimento. Obras como England, My England, Fading Light e The New Londoners demonstram sua capacidade rara de observar as mudanças culturais sem recorrer ao cinismo ou à nostalgia simplificadora.
Moda, identidade e o legado de Chris Steele-Perkins

Sua obra possui enorme relevância para o pensamento contemporâneo sobre moda, embora raramente seja discutida dentro desse campo específico. Steele-Perkins compreendia profundamente a dimensão política da aparência. Em seus retratos, roupas nunca são neutras. Elas funcionam como códigos sociais, dispositivos de pertencimento e tecnologias de sobrevivência simbólica. Dos Teddy Boys aos jovens racializados da Londres dos anos 1970, das comunidades católicas de Belfast aos frequentadores das praias inglesas nos anos Thatcher, o fotógrafo observava como corpos utilizam vestimentas para negociar dignidade, desejo, rebeldia e identidade. Sua câmera percebia o vestuário como extensão emocional dos sujeitos. Em um momento histórico em que a moda frequentemente oscila entre espetáculo comercial e discurso vazio sobre autenticidade, revisitar a obra de Steele-Perkins torna-se particularmente importante. Ele nos lembra que imagem não é apenas superfície. Imagem é memória social condensada.

Sua morte, aos 78 anos, encerra uma trajetória fundamental para a história do fotojornalismo contemporâneo, mas também deixa um legado raro. Steele-Perkins demonstrou que fotografar pode ser um exercício de escuta, convivência e responsabilidade coletiva. Gregory Halpern, co-presidente da Magnum, definiu sua fotografia como capaz de encontrar lirismo na vida cotidiana. Steele-Perkins conseguia perceber beleza sem apagar conflito, dignidade sem romantização e humanidade sem simplificação. Seu arquivo visual permanece como testemunho de um mundo em transformação constante, mas também como reflexão sobre aquilo que permanece. Comunidade, memória, resistência, identidade e desejo atravessam toda sua produção como linhas que conectam diferentes geografias e diferentes épocas.
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