Complete Profile — Freddy Mamani

A trajetória de Freddy Mamani ocupa um lugar singular na arquitetura contemporânea latino-americana porque articula, de maneira simultânea, questões de identidade cultural, transformação urbana, mobilidade social e representação política.

Sarah Rocksane Araujo

Escrito por Sarah Rocksane Araujo

Redação, Moda e Beleza

Em um cenário global frequentemente dominado por referências arquitetônicas eurocêntricas e por uma estética internacional marcada pela neutralidade formal, o arquiteto boliviano construiu uma linguagem visual própria que desafia convenções históricas e redefine o papel da arquitetura como instrumento de afirmação cultural. Sua produção não se limita à construção de edifícios. Ela representa a materialização de uma mudança profunda na posição social, econômica e simbólica dos povos indígenas na Bolívia contemporânea.

Nascido em 1971 e descendente do povo indígena Aimará, Mamani cresceu em um contexto marcado pelas transformações políticas e sociais que sucederam décadas de instabilidade e regimes autoritários na Bolívia. Ainda jovem, acompanhou o pai nos canteiros de obras de La Paz, experiência que lhe proporcionou um conhecimento direto dos processos construtivos antes mesmo de sua formação técnica. Sua trajetória profissional começou como pedreiro, avançou para a engenharia civil e posteriormente para a arquitetura, configurando um percurso pouco convencional quando comparado aos modelos tradicionais de formação acadêmica das elites profissionais latino-americanas. Essa experiência prática foi decisiva para a construção de sua visão arquitetônica. Diferentemente de muitos arquitetos formados dentro de uma tradição modernista internacional, Mamani desenvolveu seu pensamento a partir da observação das transformações urbanas de El Alto, cidade localizada a mais de quatro mil metros de altitude no Altiplano boliviano e considerada uma das maiores expressões urbanas do crescimento das populações indígenas nas últimas décadas.

El Alto constitui um fenômeno urbano singular. Originalmente concebida como uma extensão periférica de La Paz, transformou-se em município autônomo em 1984 e passou a crescer aceleradamente em função do êxodo rural de populações indígenas oriundas das regiões agrícolas do Altiplano. Atualmente, é uma das cidades mais populosas da Bolívia e abriga uma maioria expressiva de habitantes que se identificam como aimarás. O crescimento econômico de parte dessa população indígena, especialmente a partir das décadas de 1990 e 2000, alterou profundamente a paisagem social boliviana. O surgimento de uma nova burguesia aimará produziu uma demanda por formas de representação capazes de expressar prosperidade econômica sem abandonar referências culturais historicamente marginalizadas. Foi justamente nesse contexto que Freddy Mamani encontrou o terreno fértil para desenvolver sua arquitetura.

Freddy Mamani  - Divulgação
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A resposta arquitetônica criada por ele recebeu o nome de Neo-Andino, embora seja popularmente conhecida pelo termo "cholet". O conceito nasce da fusão entre as palavras "chalet" e "cholo", termo que durante muito tempo foi utilizado de forma pejorativa para designar descendentes indígenas, mas que passou por um processo de ressignificação cultural. O cholet transforma um antigo marcador de discriminação em símbolo de orgulho e pertencimento. Esses edifícios apresentam uma tipologia bastante específica. Geralmente possuem entre três e sete pavimentos e combinam funções comerciais, culturais e residenciais em uma mesma estrutura. Os andares inferiores são ocupados por lojas, galerias e espaços comerciais. Os níveis intermediários abrigam amplos salões de festas destinados a casamentos, celebrações comunitárias e eventos sociais. Os pavimentos superiores funcionam como residências dos proprietários ou de suas famílias.

Essa configuração revela uma compreensão sofisticada das dinâmicas econômicas e sociais locais. Os edifícios não são apenas moradias ou espaços comerciais. Funcionam como microecossistemas urbanos capazes de gerar renda, fortalecer vínculos comunitários e afirmar status social.

Freddy Mamani  - Divulgação
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Do ponto de vista formal, a arquitetura de Mamani rompe radicalmente com a ideia de que a sofisticação arquitetônica deve ser associada à discrição estética. Seus edifícios apresentam fachadas marcadas por explosões cromáticas, formas geométricas complexas, superfícies ornamentadas e composições visuais de grande impacto. O arquiteto incorpora padrões geométricos presentes nos tecidos aguayo utilizados pelas mulheres aimarás, elementos iconográficos da cruz andina, símbolos pré-colombianos, formas inspiradas em animais, montanhas, relâmpagos e flores, além de referências provenientes da arquitetura de Tiwanaku, uma das mais importantes civilizações pré-colombianas da região andina.

Freddy Mamani  - Divulgação
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O sítio arqueológico de Tiwanaku desempenha papel central em seu imaginário criativo. Localizado a aproximadamente sessenta quilômetros de El Alto, o conjunto arquitetônico constitui um dos principais patrimônios históricos da Bolívia. Mamani frequentemente destaca que suas formas geométricas derivam diretamente da observação dos motivos presentes nas ruínas dessa antiga capital andina. Contudo, sua arquitetura não se limita à reprodução histórica. O que torna sua produção relevante é justamente a capacidade de traduzir referências ancestrais em uma linguagem contemporânea. Em vez de criar réplicas arqueológicas, ele produz edifícios que dialogam simultaneamente com o passado e com o presente. Essa operação cultural adquire especial relevância quando observada sob a perspectiva da história da arquitetura latino-americana. Durante grande parte do século XX, os modelos arquitetônicos considerados legítimos foram importados da Europa ou dos Estados Unidos.

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A arquitetura moderna tornou-se sinônimo de universalidade, racionalidade e progresso. Nesse processo, inúmeras formas de conhecimento construtivo indígena foram desvalorizadas ou excluídas das narrativas oficiais. A obra de Mamani desafia essa lógica ao afirmar que referências indígenas não pertencem exclusivamente ao passado, mas podem constituir a base de projetos arquitetônicos contemporâneos. Sua produção também dialoga com fenômenos observados em outras áreas criativas da América Latina, especialmente na moda, no design e nas artes visuais. Em todos esses campos, observa-se uma crescente valorização de repertórios culturais historicamente marginalizados e uma busca por modelos de criação menos dependentes das validações do Norte Global. Nesse sentido, os edifícios de Mamani podem ser compreendidos como manifestações arquitetônicas de um movimento mais amplo de descolonização estética.

A crítica especializada frequentemente debate a posição de sua obra dentro da arquitetura contemporânea. Alguns arquitetos classificam seus projetos como excessivamente decorativos e questionam seu enquadramento disciplinar. Outros argumentam que sua produção representa uma das mais importantes contribuições arquitetônicas da América Latina nas últimas décadas. Independentemente dessas divergências, o impacto cultural de sua obra é incontestável. Mais de uma centena de edifícios foram construídos segundo seus princípios formais, e diversas releituras de seu estilo passaram a surgir em diferentes cidades bolivianas. O fenômeno evidencia algo fundamental. A arquitetura de Mamani não se tornou relevante apenas porque introduziu uma nova estética. Ela ganhou força porque respondeu a uma demanda social concreta por reconhecimento e representação.

Freddy Mamani  - Divulgação
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Essa dimensão política torna-se ainda mais evidente quando observamos a relação entre seus edifícios e a ascensão das populações indígenas na Bolívia contemporânea. Durante séculos, comunidades aimarás permaneceram excluídas dos centros de poder econômico e simbólico. A emergência de uma classe empresarial indígena criou novas formas de visibilidade social que precisavam ser traduzidas espacialmente. Os cholets funcionam como monumentos dessa transformação histórica. São edifícios que comunicam sucesso econômico, mas que recusam os códigos tradicionais associados ao luxo ocidental. Essa questão é particularmente relevante para os debates contemporâneos sobre luxo e consumo cultural. Durante décadas, o luxo foi associado à discrição, ao minimalismo e à contenção formal. A arquitetura de Mamani propõe uma alternativa baseada na exuberância visual, na ornamentação e na afirmação explícita da identidade cultural. Sua obra sugere que o luxo pode assumir formas distintas dependendo dos contextos culturais em que se manifesta.

Freddy Mamani  - Divulgação
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Sua obra demonstra que a modernidade não precisa ser sinônimo de homogeneização e que a inovação não exige o abandono das referências locais. Ao transformar El Alto em uma espécie de laboratório visual da contemporaneidade andina, Mamani construiu muito mais do que edifícios coloridos. Ele criou uma linguagem arquitetônica capaz de tornar visível uma história que durante muito tempo permaneceu à margem dos discursos oficiais. Em um momento em que arquitetura, moda, design e arte discutem com intensidade questões relacionadas à identidade, representatividade e diversidade cultural, sua produção surge como exemplo de como formas estéticas podem atuar como instrumentos de transformação simbólica.

Freddy Mamani  - Divulgação
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A chamada Nova Arquitetura Andina não representa apenas uma tendência formal. Ela materializa uma mudança histórica na distribuição de visibilidade, reconhecimento e poder cultural na Bolívia.

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