RioFW 2026: Dendezeiro
A Dendezeiro ocupou a passarela do Rio Fashion Week não apenas para apresentar uma coleção, mas para instaurar um ritual de pertencimento e investigação identitária através da cena ballroom.
Escrito por
Escrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza
Sob o comando de Hisan Silva e Pedro Batalha deslocam a marca de sua série anterior para um mergulho visceral nas próprias origens, onde a moda opera como plataforma narrativa para a comunidade negra e LGBTQIA+.
O que se viu foi a materialização de um sistema de pensamento que reconhece no corpo um espaço de construção política e resistência. Há uma inteligência ética nesse projeto: a House of Dendezeiro não busca apenas vestir, mas reconfigurar os códigos de expressão e segurança que estruturam sua própria trajetória estética. O rigor do design manifesta-se em uma silhueta que abandona a contenção para abraçar a exposição direta, transformando a pele em parte integrante do projeto. As peças revelam um exercício radical de modelagem que valoriza o movimento e a atitude, desafiando a percepção tradicional do vestuário utilitário. Estruturas que tensionam o corpo convivem com volumes que evocam a performance das passarelas das balls, evidenciando uma construção técnica que não sacrifica a funcionalidade em favor do simbolismo.

Há uma sofisticação no modo como a marca articula recortes e proporções, criando uma zona de fricção entre o que se mostra e o que se protege, afirmando uma sensualidade que é, antes de tudo, autonomia. A materialidade da coleção é onde o discurso se adensa, marcando a estreia do látex no repertório da etiqueta. O couro ganha destaque como matéria-prima central, conferindo uma solidez arquitetônica que contrasta com a fluidez das performances. O uso desses materiais não é aleatório; eles evocam a crueza e a sofisticação da cultura urbana, funcionando como suporte para uma pesquisa têxtil que insiste no tátil e na durabilidade.


A incorporação de texturas que brilham e escorrem sobre o corpo reforça o caráter escultórico das peças, provando que a Dendezeiro encara a matéria como memória coagulada de uma vivência coletiva. A cartela de cores organiza o olhar através de uma sobriedade que privilegia o preto e tons terrosos, permitindo que as formas e a materialidade assumam o protagonismo do discurso visual. A cor aqui funciona como território de identificação, recusando o espetáculo vazio em favor de uma paleta que sugere permanência e autoridade.

O contraste entre superfícies opacas e o brilho sintético do látex cria uma atmosfera de suspensão e mistério, refletindo a complexidade de um movimento que habita as margens para reprogramar o centro. Há uma sensibilidade técnica no modo como a tonalidade é distribuída, organizando a narrativa de uma coleção que se recusa a ser efêmera.
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