RioFW 2026 — Piet + Pool
A ocupação do Píer Mauá pela colaboração entre Pool e PIET não se deu apenas como um evento de calendário, mas como uma investigação sobre a potência cultural do futebol enquanto sistema de pensamento.
Escrito por
Sarah Rocksane AraujoEscrito por Sarah Rocksane Araujo
Redação, Moda e Beleza
Pedro Andrade e Paula Kim deslocam o esporte de seu campo funcional para instaurá-lo no território da moda nacional sob uma ótica contemporânea e democratizada. O que se viu na passarela da Rio Fashion Week foi a materialização de uma linguagem que reconhece no uniforme uma expressão de identidade coletiva e memória afetiva.
Não se trata de uma mimesis do vestuário esportivo, mas de uma reinterpretação crítica de seus códigos, onde a PIET imprime sua assinatura autoral em uma estrutura de alcance global. Há uma inteligência nesse projeto: a moda aqui opera como ponte entre a herança visual do esporte e a crueza da cultura urbana.

O rigor do design manifesta-se no embate entre o clássico e o experimental, onde peças de inspiração vintage são atravessadas por proporções e intervenções gráficas disruptivas. Jaquetas estruturadas em patchwork de tons terrosos convivem com a fluidez de conjuntos em jersey, revelando uma pesquisa de silhueta que transita entre o shape regular e o volume técnico. O trench coat, deslocado de seu contexto tradicional para ser sobreposto a conjuntos esportivos, reafirma a capacidade da colaboração de reconfigurar o guarda-roupa cotidiano. A aplicação de transfer com relevo e textura surge como um detalhe que adensa o discurso, trazendo uma dimensão visual tátil que eleva a percepção de acabamento das peças, tornando o utilitário um gesto estético sofisticado.

A cartela de cores recusa o óbvio ao organizar referências reconhecíveis (branco, azul, amarelo e preto) em uma lógica de versatilidade e permanência. O amarelo irrompe como ponto de luz em camisetas de algodão agroecológico, enquanto o azul e o preto estabelecem uma base gráfica que organiza o olhar. Essa escolha cromática não é aleatória; ela ressoa como um signo de brasilidade reprogramada, onde a cor funciona como território de identificação sem cair na caricatura. O contraste entre superfícies, especialmente nos conjuntos de nylon e jaquetas de couro com grafismos, cria uma atmosfera de tensão entre o brilho sintético e a opacidade da matéria, reforçando uma leitura urbana e multifacetada do uniforme.

A proposta genderless do projeto amplia as possibilidades de uso, transformando a passarela em um espaço de experimentação criativa e inclusão. A introdução de uma linha infantil, feito inédito para Pedro Andrade, estende a narrativa da coleção para novos públicos, provando que a potência do design independente pode ser escalável sem perder sua essência. Os acessórios, como bonés de identidade gráfica marcante e calçados híbridos, operam como extensões consistentes desse universo, completando um visual que é, simultaneamente, atitude e proximidade. Há uma ética da acessibilidade que atravessa a coleção, onde o preço estratégico não compromete a integridade do projeto de design, mas o valida como uma ferramenta de construção de comunidade.
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O artista uruguaio Mauro Cosenza @mauro_cosenza, formado no circo e no teatro físico, apresentou Neo Botanica na Load Gallery @load.gallery
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